quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Os Velhos Álbuns

* Revirando velhos álbuns de fotos de décadas passadas, da chamada "Idade de Ouro", fui na Internet e descobri que, daqueles meus amigos de colégio lá da urbezinha distante, quase todos se tornaram ou prefeitos, ou vice, ou vereadores, ou secretários municipais, algo desse nível. Não é muito, muita coisa, claro, até porque o cara tem que ser alguma coisa de alguma coisa, até dá um reconforto descobrir isso.Ou seja, quase todos prestavam. Ou tinham ambições políticas. Ou enganavam bem. *Ah, os álbuns de fotografias, com aquelas cores desbotadas dos anos setenta. Pois é, usávamos então calças bocas de sino e, apesar de menores de idade, o que mais apareciam nos retratos eram as festas, os risos e as garrafas de cerveja. *Tempos dos rolos de filmes, da revelação, da espera. *Comprei a minha primeira câmera com uns 15 anos de idade. Curiosamente - mesmo ainda sendo a Guerra Fria, me caiu às mãos uma máquina polonesa meio primitiva porém representativa de um grande avanço: a regulagem, com abertura e velocidade, a base de tudo. *A minha - repassada pelo retratista local (que queria me contratar para trabalhar com ele) - dizia "Made in Polska". Ou seja, era polonesa, ainda do tempo do comunismo e do bloco soviético. Não sei de onde saiu. A abertura máxima era 4.5 e a velocidade ia até 250. Com aquele bichinho, que me dava um certo vaidoso ar profissional, fotografei todos os meus colegas do Banco do Brasil e a boa vida que levavam então. *O BB naqueles tempos tinha o status de maior empresa nacional, maior até do que a Petrobrás. *Os funcionários do BB, todos concursados, ganhavam bem, trabalhavam seis horas por dia e desfrutavam de 14 salários anuais. O sonho de muitas moças do interior era casar com um desses caras. *Falei dos filmes de rolo. Pois estão aqui, arquivados, visíveis, encontráveis, à vista de todo mundo. Hoje, porém, se der um xabu gigantesco no sistema de informática global ou se aparecer um vírus universal terrível, tudo que está na memória dos computadores e no celular, pode ser comido, destruído, apagado - e aí adeus tia Chica, adeus lembranças, adeus selfies. É um risco real. *Nelson Rodrigues se dizia um reacionário, abominava as coisas da juventude e aconselhava os jovens: "Envelheçam." Costumava afirmar que aos 20 anos o sujeito não sabia nem dizer boa noite para sua namorada. Foi publicado aqui no RS na Folha da Tarde, se não me engano, com sua coluna "A Vida como Ela É". * Nelson tinha suas invocações. Uma era com as estagiárias de jornal que ele chamava de "estagiárias de calcanhar sujo", pela movimentação, correrias, jeito descolado e pelas sandálias gastas que usavam. Ou o "idiota de babar na gravata", ou de "saúde de vaca premiada". Nunca saiu do Brasil, seu mundo era o bairro do Méier. *É difícil viver em sociedade, diz uma vizinha. Disse-o quando, em pleno elevador lotado, um sujeito deu um arroto homérico sem o mínimo constrangimento. Fazer o quê. Na China, pelo que falam, é sinal de boa educação e de estar satisfeito com o almoço quando o convidado arrota à mesa. *Na Bahia, uma vez, me deram feijão doce, com açúcar, para provar. é algo de fundo religioso, me explicaram. Consomem numa boa. * Na fronteira era costume - não sei se continua - comer ovo frito com açúcar. Deve ser algo meio uruguaio, meio charrua. *Continuo adorando a palavra "carniceria" para açougue. Dependendo da falta de luz, tão comum, a casa de carnes frescas pode mesmo virar uma carniceria. *Gosto é gosto, costume é costume, já disse aquela velhinha do jegue. Não sou a favor, nem contra, só não me peçam para usar aquele beiço de pau do Cacique Raoni. Como é que se consegue dormir com aquilo, é algo retirável, não entra mosquitos, eis as minhas perguntas. *Os Hunos, feios como o diabo, amarravam e deformavam a cabeça dos bebês, para alongá-las. Ficavam com aparência de ETs, eles que já eram horríveis e fediam mais do que cachorro molhado. *Os antigos romanos, entre os seus conceitos e preconceitos, tinham o de não suportar o fedor dos gauleses, atuais franceses. Não à toa o sistema de abastecimento de Roma era um primor da engenharia e bem distribuído por uma cidade que chegou a mais de 1 milhão de habitantes, quase dois mil anos atrás. *Augusto dos Anjos era um gênio da poesia. Morreu aos 30 anos, em 1912, de tuberculose. É dele, no seu único livro" (Eu) tem "um urubu pousou na minha sorte", "a mão que afaga é a mesma que apedreja", "o beijo, amigo, é a véspera do escarro". Gosto muito do verso em que diz que fez "ultra-epilépticos esforços." *Augusto dos Anjos lia e escrevia em latim e grego e era versado em outras línguas. Pra ver como era o intelectual daquele tempo. Materialista, promovia sessões espíritas. Foi desprezado e até humilhado pelos críticos e intelectuais da época porém caiu no gosto do povo brasileiro, que o consagrou. "Eu, filho do carbono e do amoníaco, monstro de escuridão e rutilância." Seu livro é um clássico. Para editá-lo pediu dinheiro de um irmão ou coisa assim e só tirou mil exemplares. *Morrer aos 30 anos ninguém merece. Já essa história de viver até os 100 é uma bobagem custosa. Chega uma hora em que o indivíduo já viu o filme e só quer mesmo é sair do cinema, mesmo com medo. Dormir é bom, se tiver algo mais, melhor ainda. *Conheço homens simples, sem instrução formal, sem formação em literatura, que o declamam até hoje, em bares, sobretudo. Em butecos populares não faz muito apareciam tais tipos assim, simplórios, de profissões humildes, que falavam apaixonadamente a respeito de um único livro que os impressionou. Conheci um, na fronteira, pai de um amigo meu, louco pelo Hemingway e seu O Velho e o Mar. *Olho pela janela. O povo foi sequestrado daqui e deve estar na praia, praias cada vez mais superlotadas. Turismo em massa é uma praga. Conheci a Camboriú antiga, deliciosa (mesmo já poluída). Hoje está um troço inclassificável. Edifícios de 80 andares não dá pé, chega a oprimir. *Praia é muito bom, porém, como tudo, enjoa. Todavia entrar no mar, nadar, boiar e caminhar em horários desertos faz um bem danado .

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