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segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Hoje, 27 de outubro, os 49 anos o condomínio Felizardo Furtado

Estava lá, na contracapa da edição de sábado, 30 de outubro de 1976 do jornal Correio do Povo, sob o título “Inaugurados Hospital da PUC e Bloco de 944 Apartamentos”:
“O Presidente da República presidiu, na manhã de ontem, os atos de inauguração do Núcleo Habitacional Felizardo Furtado, com 944 apartamentos, e o Hospital Universitário da PUC. Acompanhado pelo governador Sinval Guazzelli, pelo chefe do gabinete militar da Presidência da República, general Hugo de Abreu, e pelos ministros Rangel dos Reis e Arnaldo da Costa Prietto, o presidente chegou ao bairro Jardim Botânico, onde foi construído o núcleo habitacional, às 9 horas e 30 minutos, sendo aguardado pelo prefeito Guilherme Socias Villella, pelo diretor-superintendente do INOCOOP, Renato Eickstaed, e demais autoridades. Estudantes de todo o bairro e bandas marciais saudaram o chefe da Nação em sua chegada ao Núcleo Habitacional Felizardo Furtado. No local, o presidente Ernesto Geisel solicitou amplas informações sobre a obra que custou 130 milhões de cruzeiros, interrogando principalmente o diretor-superintendente da INOCOOP. A seguir entregou a chave de um apartamento a Eduardo Araújo, o primeiro morador do Núcleo”.
PROGRAMAÇÃO ELEITORAL - Na verdade o presidente Geisel havia chegado ao Estado na quinta-feira, seguindo imediatamente a Santo Ângelo, onde abriu oficialmente a colheita do trigo. Em seguida foi a Caxias do Sul e lá inaugurou o Centro de Tecnologia e Pesquisa da Universidade de Caxias do Sul, UCS.Era, em essência, uma agenda política, pois estava-se às vésperas das eleições municipais (as únicas permitidas para cargos executivos) e Geisel queria dar “um empurrãozinho” no seu partido, a Aliança Renovadora Nacional, Arena. Ele também esteve em Estrela, sua terra natal, e em Bom Retiro, onde inaugurou outras obras e fez um discurso sobre a importância de “se votar bem”.
No Conjunto Felizardo Furtado, Geisel e comitiva descerraram a placa de inauguração, conheceram um apartamento e depois seguiram para o Hospital da PUC.Durante a inauguração do conjunto habitacional, o Presidente da República foi saudado pelo presidente da Cooperativa Habitacional que construiu o “núcleo” (INOCOOP), Gilberto Rodrigues. Segundo transcreveu o Correio do Povo, Rodrigues, ao se referir à obra e ao presidente Geisel, falou em “libertação” dos trabalhadores:“Esse momento, consagrado com a presença de Vossa Excelência, significa a libertação de 944 famílias de trabalhadores que passam da condição de inquilinos e peregrinos de tetos alheios, a proprietários da casa própria”.
Na realidade, o Conjunto de 944 unidades, 8 prédios, 62 mil metros quadrados de obras (iniciadas em fevereiro de 1974), beneficiava famílias com renda mensal de cinco a oito salários mínimos – ou seja, era um condomínio para a classe média baixa. As prestações eram relativamente suaves (menores que o aluguel correspondente) e longas, o que atraiu um grande número de interessados.
VENDIDOS NA PLANTA - A maioria dos apartamentos, de um, dois e três dormitórios (poucos), havia sido vendida na planta, antecipadamente. Um empreendimento desssa magnitude, é claro, atraiu a atenção do mercado imobiliário e de muitos especuladores que viram uma boa oportunidade de lucrar com a revenda dos imóveis, como se pode ver pelos anúncios classificados do Correio do Povo (o maior jornal da época). No domingo, 31 de outubro, lia-se no CP:“Transfere-se vários apartamentos com um, dois e três dormitórios, living, banho social, cozinha e área de serviços. Conjunto novo com play-graud, estacionamento e área verde. Conj. Residencial Felizardo Furtado. Chaves em nosso poder. Diversos preços e condições. Tratar Riachuelo, 1513, s/loja, f.244471.” Outro anúncio, na mesma edição, dizia: “Preciso urgente de um apto no parque residencial FF. Negócio direto. Tratar f. 255004”. Dezenas de anúncios desse tipo – bem antes da data oficial da inauguração – saíam regularmente na imprensa.

No alto, o então prefeito Guilherme Socias Villela e João Antonio Dib, hoje vereador de Porto Alegre. abaixo, uma visão do condomínio nos dias de hoje.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Esse é das antigas

O Condomínio Emanuel Domingues surgiu em 1971, na esquina com a Ipiranga.

São três andares, 218 apartamentos (máximo de 16 por andar) de dois, três e quatro dormitórios e seis lojas que estão fechadas. Localizado entre a avenida Ipiranga, a rua Alcebíades Caetano da Silva e a Chile, o Conjunto Residencial Emanuel Domingues foi inaugurado em 1971. Destinado inicialmente a funcionários públicos, era um projeto do Instituto de Pensionistas do Estado, IPE, que financiava os imóveis pelo esticado prazo de 15 ou 20 anos. Aos poucos, como é natural, passou a ser habitado por um público variado, mas sempre de classe média e, em sua maioria, idosos – no caso dos proprietários. 
Anterior ao Felizardo Furtado e ao da Corsan, o Emanuel Domingues não conta com elevadores e nem um sistema permanente de vigilância – que acontece somente à noite, aos finais de semana e nos feriados. Os furtos e roubos, porém, não chegam ainda a ser um problema, apesar da localização junto à avenida. A infra-estrutura do Residencial é bastante simples: algumas churrasqueiras e uma pequena pracinha para as crianças. Não existem elevadores. Estacionamento existe, mas não em quantidade suficiente. Erguido em uma época em que o bairro era ainda uma espécie de vila formada por muitas casas de madeiras, terrenos baldios e antigos e pequenos prédios de alvenaria, o Emanuel Domingues (homenagem a um antigo morador do Jardim Botânico, dizem alguns) foi projetado originalmente para ir até a rua Valparaíso (por onde, em 1971, passava o Riacho Ipiranga), o que não aconteceu devido às invasões do local.

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

O tempo passa com as gírias

Os tempos passam, e as gírias de antigamente caem em total desuso - quando não se tornam até mesmo ridículas. Em 1972, na época das pantalonas e das jaquetas apache, uma loja de Porto Alegre (Moka do Kanto) publicou um anúncio "moderninho", apelando para a linguagem usual dos jovens urbanos da época, com expressões que fariam qualquer homem ou mulher dos dias atuais (incluindo os hoje sessentões) dar risos de bem humorada zombaria. Jóia, bicho, xuxu beleza, é isso aí amizade, vamos transar juntos (que na época não tinha significado sexual e sim o de interação ) expressões assim ficaram mais do que "quadradas" - simplesmente se tornaram ridiculamente infantis. Reprodução do Correio do Povo.

domingo, 21 de setembro de 2025

O grande humorista que veio de Guaíba

José Evaristo Villalobos Júnior - mais conhecido como Carlos Nobre - faleceu no dia 16 de dezembro de 1985 e deixou saudades em quem tem hoje mais de meio século de vida. Natural de Guaíba, Nobre foi, sem dúvida, o maior humorista gaúcho depois do Barão do Itararé, ou talvez até rivalizasse com ele. Sua página na Zero Hora, sempre com fotos de muitas mulheres bonitas e preferencialmente com pouca roupa, era a mais lida do jornal. Suas tiradas e aforismos hilários misturam o humor gaiato do povo com a crítica social e a sofisticação da inteligência crítica. Por exemplo, nada mais atual do que esta, de um humor amargo: "Já está na hora do Brasil voltar a brincar de "pega ladrão". 
Nesta reprodução da Revista do Globo, de abril de 1961, Nobre aparece assinando o contrato de sua renovação com a Rádio Gaúcha, já que era um humorista completo, de jornal, rádio e televisão. 

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Luis Fernando Veríssimo jovem e saxofonista

Com 20 anos de idade em 1956, voltando dos Estados Unidos, o jovem Luis Fernando Veríssimo trazia a paixão do jazz e do saxofone - o que o acompanha até hoje. A foto foi publicada na Revista do Globo de novembro de 1956, que noticiava a volta da família Veríssimo à sua casa na rua Felipe de Oliveira, no bairro Petrópolis, em Porto Alegre. Eles tinham permanecido vários anos nos Estados Unidos, e lá a jovem Clarissa havia conhecido um norte-americano, com quem em breve casaria. Luis Fernando, pelo visto, tinha bossa e levava jeito de saxofonista, lembrando até, meio remotamente, alguns dos astros do jazz da costa leste... 

terça-feira, 4 de março de 2025

Os banhos no Guaíba em 1934

Em junho de 1934 o rio Guaíba - que muitos insistem em chamar de lago - era um rio relativamente limpo e propício ao banho. Naquela época a cidade de cerca de 250 mil pessoas não dava as costas ao Guaíba, como hoje ocorre. A zona sul da capital gaúcha já era explorada pelas suas belezas naturais e por suas praias os meses de verão. Como viajar até o litoral era uma aventura, naqueles tempos de poucas estradas, muita gente preferia ficar por aqui mesmo e desfrutar dos encantos de Ipanema e de outro bairro que surgia - o Espírito Santo. As imobiliárias e construtoras apregoavam, em anúncios de jornais, as vantagens de se adquirir um imóvel nestes locais, como se vê nesta reprodução do Correio do Povo. 

sábado, 11 de janeiro de 2025

Ipiranga, um lixão a céu aberto

 



Na década de setenta - 1972, neste caso - o Jardim Botânico era um bairro simplório sujeito a enchentes, inclusive, marcado por uma paisagem quase rural, com muitas casinhas de madeiras onde moravam, entre outros, modestos funcionáios públicos e chacareiros. A Ipiranga, ainda incompleta, servia até como lixão a ceu aberto,. A Valparaíso, hoje a rua que passa atrás do Bourbon Ipiranga, servia igualmente como depósito de detritos, para irritação dos moradores, como se vê nesta matéria do Correio do Povo.

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Outubro de 1974: o último jogo de Everaldo

 




Everaldo Marques da Silva é hoje uma estrela dourada na bandeira do Grêmio, forma encontrada pelo então tricolor da Azenha para homenagear esse lateral esquerdo aplicado, eficiente e discreto que se consagrou tricampeão mundial de futebol pela seleção brasileira no México em 1970. A sua morte trágica, na noite de domingo, 27 de outubro de 1974, comoveu o povo gaúcho, o mesmo que o havia recebido em apoteose quando a seleção canarinho voltou do México trazendo consigo, em definitivo, a cobiçada Taça Jules Rimet. Único dos nossos no selecionado nacional, titular na lateral-direita quase de última hora em lugar de Marco Antonio, virou um ídolo popular acima das paixões clubísticas, motivo de orgulho em uma época em que os jogadores de futebol andavam nas ruas, não ganhavam milhões e nem andavam em Ferraris e Lamborguinis.
Foi, aliás, dirigindo um Dodge-Dart nacional que havia ganho de presente de uma concessionária de veículos, ao retornar da Copa, que Everaldo encerrou precocemente a sua vida, pouco mais de um mês depois de completar 30 anos de idade.  E nem foi na Porto Alegre onde havia nascido e onde crescera e sim na terra do arroz, Cachoeira do Sul, a quase 200 quilômetros da capital.  Com ele faleceram sua esposa Gleci, a filhinha Deise, de apenas 3 anos e, mais tarde, a irmã de Everaldo, Romilda, tripulantes de um automóvel lotado com sete pessoas. O culpado pelo acidente foi um motorista de Santa Maria chamado Vergílio, com 48 anos de idade e mais de 20 de profissão, casado, pai de três filhos, por ironia, um “gremista doente”, como diria mais tarde aos jornalistas. O caminhoneiro havia abastecido seu Mercedes-Benz, carregado com 24 toneladas de arroz, em um posto de gasolina à margem da BR-290 e retornou abruptamente para a rodovia, sem ver o Dodge que seguia no sentido de Porto Alegre. Eram 22 horas e 30 minutos de 27 de outubro daquele ano em que o Brasil apenas havia se classificado em quarto lugar na Copa vencida pela Alemanha, iniciando um jejum de títulos que duraria duas décadas.
Everaldo: estrela no pavilhão tricolor.


O lateral-esquerdo impecável, o marcador cerrado da Copa de 70 nem sequer teve chance de desfrutar a sua aposentadoria – que na verdade já acontecera, precocemente. Everaldo, agora, pretendia trocar os gramados por uma cadeira na Assembleia Legislativa do Estado, pela Arena, Aliança Renovadora Nacional, o partido situacionista que disputava as eleições no próximo dia 15 de novembro. Para isso tinha ido a Cachoeira com a família, participar do jogo dos veteranos do Grêmio contra um time do colégio marista local, evento que lhe seria útil na busca de mais votos. Transmitida pela rádio local, a Princesa, a partida atraiu um grande público e terminou com 6 a 3 para o Grêmio, às 18 horas e 15 minutos. Everaldo teve uma atuação discreta, jogou além dos 15 minutos prometidos e meteu uma bola na trave. Depois participou de um coquetel, deu autógrafos, distribuiu a revista do Grêmio e santinhos da sua candidatura, visitou alguns amigos e partiu no seu “Dojão” amarelo de volta a Porto Alegre. Mal sabia que havia jogado o seu último jogo e fazia agora a sua última viagem.
Loivo, ponteiro esquerdo gremista, que o acompanhava como amigo e cabo eleitoral,  foi o último colega de clube e profissão a falar com o ídolo tricolor. Abastecendo o seu Chevete no Posto Constante, no entroncamento da BR-153 com 290, Loivo gritou para o amigo: “Nos encontramos em Butiá para tomar uma champanha com os amigos”. Não deu tempo.  (Pesquisa e texto: V. Minas)