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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Navios da Costeira para todo o Brasil

Navios da Costeira. O termo era mais do que usual no Rio Grande do Sul - e também no Brasil - na primeira metade do século, época em que a navegação de cabotagem, ao longo da extensa costa marítima brasileira, transportava centenas de milhares de passageiros, em viagens longas, fatigantes e também extremamente agradáveis. Porto Alegre, a última capital brasileira, ao sul, vivia tudo isso intensamente, com grande movimentação de pessoas no cais do porto, no centro, um local ainda elegante e que centralizava, verdadeiramente, a vida da cidade. Em 1935, ano do centenário da Revolução Farroupilha, a Revista do Globo, da família Bertaso, publicava este anúncio, informando sobre a saída de vapores, de passageiros e de cargas, que seguiriam para outros destinos ao longo do litoral brasileiro. A Costeira, da família Lage, era a maior e mais prestigiosa companhia de navegação nacional naquela época.

terça-feira, 4 de março de 2025

Os banhos no Guaíba em 1934

Em junho de 1934 o rio Guaíba - que muitos insistem em chamar de lago - era um rio relativamente limpo e propício ao banho. Naquela época a cidade de cerca de 250 mil pessoas não dava as costas ao Guaíba, como hoje ocorre. A zona sul da capital gaúcha já era explorada pelas suas belezas naturais e por suas praias os meses de verão. Como viajar até o litoral era uma aventura, naqueles tempos de poucas estradas, muita gente preferia ficar por aqui mesmo e desfrutar dos encantos de Ipanema e de outro bairro que surgia - o Espírito Santo. As imobiliárias e construtoras apregoavam, em anúncios de jornais, as vantagens de se adquirir um imóvel nestes locais, como se vê nesta reprodução do Correio do Povo. 

sábado, 1 de março de 2025

Rádio Gaúcha liderava audiência em 1961

No início de 1961 Porto Alegre contava com oito emissoras de rádio, algumas das quais não mais existem com tais nomes - o caso da Itaí, que foi a quarta estação a operar em Porto Alegre, inaugurada nos primórdios dos anos 50.  Segundo o IBOPE, a Rádio Gaúcha liderava a audiência, com 28 por cento das preferências, seguida da Farroupilha e da Itaí. A Guaíba, mais seleta, ficava em quarto lugar. A pesquisa foi publicada em forma de anúncio, pela própria Rádio Gaúcha, na Revista do Globo. Note-se que a Gaúcha é ainda hoje a líder. 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Inaugurado o primeiro semáforo de Porto Alegre

Quando teria sido inaugurado o primeiro semáforo de Porto Alegre? Essa pergunta poucos se fizeram, embora tais sinaleiras, como chamam os gaúchos, sejam vitais para o sistema de trânsito e façam parte do cotidiano não só de motoristas como também de pedestres que circulam pela capital gaúcha. Pois a resposta à pergunta é: o primeiro semáforo de Porto Alegre foi inaugurado no dia 11 de novembro de 1940, durante a gestão do prefeito José Loureiro da Silva, quando a cidade mal chegava a 300 mil habitantes, e mereceu destaque nos jornais da época, que ressaltaram a importância da modernidade, que nos comparava aos grandes centros urbanos - Rio de Janeiro e São Paulo. A "sinalização automática" vinha substituir os guardas de trânsito, aquelas figuras pitorescas que ficavam sobre uma espécie de picadeiro, com um apito na boca e fazendo gestos com os braços, muito comuns em cenas do cinema mudo. A matéria acima foi extraída da coleção do Correio do Povo do Arquivo Histórico de Porto Alegre. 

Os assaltos sem arma de fogo na Porto Alegre de 1950


É claro que a violência e a criminalidade dos tempos antigos não se comparavam, em intensidade e crueldade, ao que hoje acontece. Mas também é certo que Porto Alegre nunca foi uma maravilhosa ilha de paz e amor, onde todos podiam sair absolutamente tranquilos pelas ruas, ao menos à noite, como algumas pessoas mais antigas e saudosistas erroneamente apregoam. Na verdade o número de punguistas no centro e dentro dos bondes era enorme, ao ponto de muitos deles já serem conhecidos por muitos passageiros. Também havia assaltos a pedestres, embora jamais se usasse arma de fogo.Talvez pior, se costumava espancar a vítima, à traição, deixando-a muitas vezes desacordada. Nestas duas reproduções do CP do ano de 1950 vê-se o que ocorria em uma capital com cerca de 400 mil habitantes.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Na década de 30 Porto Alegre olhava para o rio Guaíba e nele navegava

 

Nas quatro primeiras décadas do século vinte a navegação fluvial e lacustre era algo comum na vida dos gaúchos que viviam nas proximidades das lagoas e cursos dágua. Porto Alegre, especialmente, beneficiava-se desse delicioso e moroso meio de transporte, não somente de passageiros como de carga, e que se valia sobretudo de vapores para ligar a capital gaúcha à "interland" do Rio Grande do Sul em uma época em que viajar pelas estradas de terra batida era um verdadeiro suplício. Mais de vinte companhias operavam no Estado na década de vinte e trinta, com saída do cais do porto, no centro de Porto Alegre, e levando famílias inteiras para Cachoeira do Sul, Taquara, Mariante, Encantado, ou então - de modo ainda mais cotidiano - Pelotas e Rio Grande. Nesta propaganda, extraída do Correio do Povo de outubro de 1936, vemos o anúncio da Navegação Tavares, que fazia a ligação para a cidade de Palmares do Sul, no centro-sul do território rio-grandense. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Inezita Barroso em Porto Alegre é recepcionada por Paixão Cortes

 

A Revista do Globo - fundada em Porto Alegre em 1929 e encerrada no verão de 1967 - marcou época no Rio Grande do Sul como uma das mais importantes publicações de imprensa. Quinzenal, editada pela Livraria e Editora do Globo, a revista teve capas com importantes personalidades nacionais, especialmente na área artística. Em 1956 quem estampava a capa era a jovem Inezita Barroso, então com 31 anos, e já respeitada como folclorista, compositora e cantora. Inezita (junto com Hervê Cordovil) esteve em Porto Alegre, onde hospedou-se na casa do também folclorista Paixão Cortes - uma legenda da história gaúcha . Inezita faleceu em 2015, aos 90 anos. Durante muitos anos ela foi apresentadora do programa Viola, Minha Viola, da TV Cultura, de São Paulo, e é hoje reverenciada como uma das artistas populares mais importantes deste País. Nascida em família paulistana abastada, ela foi também professora e folclorista, tendo ocupado uma das cadeiras da Academia Paulista de Letras.

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Fitipaldi vence em Tarumã: 1970

 

Um dos mais importantes circuitos de corridas de veículos automotores do Brasil, o autódromo internacional de Tarumã, no município de Viamão, na Grande Porto Alegre, foi inaugurado em 8 de novembro de 1970. Admininistrado pelo Automóvel Clube Rio Grande do Sul, destacando-se pela característica da alta velocidade nos seus 3 quilômetros de pista, nele correram grandes nomes do automobilismo brasileiro, incluindo - em janeiro de 1971 - o futuro bicampeão mundial de Fórmula 1, o paulista Emerson Fittipaldi, que também seria campeão na Fórmula Indi norte-americana. Emerson veio, viu e venceu - e até com grande facilidade, como noticiou o Correio do Povo (reprodução). No ano seguinte, 1972, o precursor e desbravador do grande sucesso mundial dos nossos pillotos (ao lado de Chico Landi) seria campeão mundial de Fórmula 1. Emerson e sua família, diga-se, sempre tiveram uma grande ligação com o Rio Grande do Sul, onde participaram de diversas disputas nos anos 60, quando o automobilismo gaúcho vivia bons momentos, dando seguimento a um histórico de décadas de vanguardismo no setor de corridas.
Note-se que, na reprodução do anúncio da transmissão da Rádio Guaíba, o locutor anunciado é Pedro Carneiro Pereira, também corredor e que, três anos depois, no dia 21 de outubro de 1973, morreria em um trágico acidente no mesmo circuito de Tarumã. Reprodução do Correio do Povo.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

A primeira grande "maloca" da Capital

 A Ilhota - a primeira grande favela de Porto Alegre - estava localizada às margens do arroio Dilúvio, . Habitada, obviamente, por moradores pobres e, em sua maioria, negros ou pardos, era mal vista pelos demais porto-alegrenses, que a consideravam um local de marginais e ladrões - o que, em certa medida, era verdade. Mas o fato é que foi habitada por uma esmagadora maioria de trabalhadores que davam duro para ganhar a vida. Vivendo em sub-habitações, os moradores da Ilhota eram, inevitavelmente, as primeiras vítimas das grandes enchentes que assolavam a capital gaúcha, entre elas a fantástica cheia de 1941. Considerada uma chaga urbana, todos os prefeitos anunciavam que iriam removê-la, o que aconteceu aos poucos e foi consumado durante o governo de Guilherme Socias Villela, na década de 70, quando se construiu o bairro da Restinga, hoje uma verdadeira cidade, e para onde foram transferidas as famílias. Na Ilhota, diga-se de passagem, nasceram gaúchos ilustres, como o compositor Lupicínio Rodrigues e o craque Tesourinha. Nesta reprodução do Correio do Povo de 1966 - portanto, há meio século - o conhecidíssimo fotógrafo Santos Vidarte (uma legenda do fotojornalismo gaúcho) retrata o que era aquela "maloca".

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Censo de 2000 e os domicícios do Jardim Botânico

 Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, o Jardim Botânico contava (Censo do ano 2000), 11.494 habitantes, o que representava 0,84% da população do município. Destes, a maioria eram mulheres: 5.163 contra 6.331 homens, dos quais, no geral, 1,61% eram analfabetos.

Considerando a pequena área do bairro (2,03 kms quadrados, ou 0,43% da área de Porto Alegre), a densidade demográfica chegava a 5.662,07 habitantes por quilômetro quadrado. O JB integra a Região 16 do Orçamento Participativo. Oito anos atrás, tínhamos aqui 4.171 domicílios, com um rendimento médio dos responsáveis de 12,32 salários mínimos mensais – menor do que Petrópolis e superior ao do Partenon.
CIDADE RADIOCÊNTRICA – O Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental, datado de 1999, divide o território de Porto Alegre em nove macrozonas.
O Jardim Botânico faz parte da Macrozona 1, a chamada “Cidade Radiocêntrica”, englobando o território compreendido pelo centro histórico até a Terceira Perimetral.Esta é considerada a zona mais bem estruturada do município, uma região mista, residencial, comercial, de prestação de serviços e até de pequenas indústrias, com proteção ao patrimônio cultural. Ou seja, pode-se fazer muitas coisas por aqui, mas sempre dentro de regras que não alterem o perfil do bairro, a chamada “miscigenação”, ou “mistura de atividades”.
A Cidade Radiocêntrica inicia junto ao Laçador e segue pelas avenidas D. Pedro II, Carlos Gomes, Senador Tarso Dutra, avenida Salvador França, Aparício Borges, seguindo por Teresópolis, avenida Campos Velho (faixa preta) e Icaraí.Oficialmente, a Prefeitura Municipal estimula, nesta área, uma grande variedade de usos dos terrenos e atividades, como hospitais, shopping centers, universidades, parques, centros culturais, sempre com o objetivo de que a população local tenha como atender as suas necessidades sem fazer grandes deslocamentos. É o que a Secretaria de Planejamento chama de “Corredores de centralidade”.
Já a região entre a avenida Protásio Alves e o Porto Seco, por exemplo, é chamada de “Corredor da Produção”. Lá, são estimuladas as atividades produtivas juntamente com as residenciais.
UMA DAS QUE MAIS CRESCEM – O Plano Diretor, que deverá ser modificado e adaptado em não muito tempo, permite que se construa, em certas partes do Botânico, edifícios com até 18 andares (altura de 52 metros máximos).
É o caso, por exemplo, das margens da Salvador França e de alguns trechos de esquina da Ipiranga. Porém, para se fazer uma construção desse porte é preciso dispor de um espaço amplo – ou quatro lotes de 11 metros.Conforme o arquiteto Hermes Puricelli, da Secretaria do Planejamento Urbano, o Jardim Botânico “é uma das zonas que mais está crescendo na cidade, embora ainda não tenha explodido. É uma zona em crescente valorização e daqui a algum tempo vai ser difícil, por exemplo, sobreviveram as velhas casas de madeira que sempre existiram no Botânico. O setor imobiliário está de olho nesta região da cidade”.
Bairro Jardim Botânico
Foi criado pela Lei 2022 de 7/12/59
Limites atuais: do ponto de convergência da Av. Ipiranga (talvegue do Arroio Dilúvio) com a Rua Gen. Tibúrcio; desta pela Rua Eça de Queiroz, Rua Itaboraí e Rua Machado de Assis; desta até a Rua Felizardo até encontrar a Rua Felizardo Furtado; desta até o limite norte com o Jardim Botânico e por este limite sempre por uma linha reta, seca e imaginária, direção oeste/leste, até a Avenida Cristiano Fischer; por esta até a Av. Ipiranga seguindo pela linha do Arroio Dilúvio até o ponto de convergência com a Rua Gen. Tibúrcio.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Em 1936 Torres já contava com vôos regulares da Varig vindos de Porto Alegre

 

O mais belo balneário gaúcho, Torres, já era a preferida do que se poderia chamar de elite porto-alegrense na primeira metade do século XX. Na divisa com Santa Catarina, distante mais de 200 quilômetros de Porto Alegre, Torres já contava, no verão de 1936, com vôos da Varig, empresa aérea rio-grandense que ainda não completara uma década de existência. Nesta reprodução do Correio do Povo comunica-se que havia sido iniciado, no dia 2 de janeiro, o serviço aéreo entre a capital e tal praia, com aviões Junkers (alemães) "totalmente tomados" (pouco mais de 10 pessoas de capacidade) e probabilidade de vôos extras. Como era usual na imprensa da época, informa-se até os nomes dos passageiros a bordo, destacando-se as famílias Pila, Trein e Selk. 

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Dias de viagem para se chegar a Floripa no verão de 1941

 

No verão de 1941 viajar de ônibus em trajetos de longo curso era uma desconfortável e longa temeridade. Os cidadãos geralmente viajavam de trem, de barcos ou mesmo de aviões, preferindo tais meios de transporte às estradas de terra batida, já que não havia nenhuma via asfaltada no Rio Grande do Sul. Nesta propaganda, extraída da Revista do Globo, de Porto Alegre, aparece um anúncio da Empresa Jaeger que partia da Praça Rui Barbosa, no centro, onde então se localizava a estação rodoviária da capital gaúcha, com destino a Araranguá e Florianópolis, "em combinação com as linhas de São Paulo". 
As viagens aconteciam somente duas vezes por semana, embora para o litoral do Estado houvesse linhas diárias - afinal era o mês de janeiro e muitos seguiam para "os banhos de mar". Os ônibus eram pequenos - tais como as lotações de hoje. Note-se ainda que os telefones de Porto Alegre tinham apenas quatro dígitos.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

No tempo em que os vampiros agiam no RGS

  

Quem quer que tenha nascido no interior do Rio Grande do Sul ou de outros Estados vizinhos sempre ouviu falar nas histórias dos "tiradores de sangue", espécies de vampiros que atacavam as crianças indefesas, geralmente a caminho da escola, e retiravam-lhes com seringa o sangue à força, ou depois de dopadas. Tais relatos - que muitos interpretavam como lendas rurais, inverossímeis até - de fato aconteceram e foram narrados pelos jornais da época, como nesta reprodução do Correio do Povo, de Porto Alegre, em abril de 1980. Naquela época ainda se comercializava sangue no Brasil e não havia uma política de saúde eficaz nesse sentido, o que tornava o comércio e o tráfico - geralmente com o plasma enviado para os Estados Unidos e Europa - algo muito rentável. Curiosamente, não se tem notícia de que nenhum de tais "vampiros" tivesse sido preso, o que certamente contribuiu para dar aos fatos verídicos um tom de lenda ou de histórias que os pais contam para disciplinar e amedrontar as crianças

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

O bafo tumular da Riocell

 

Olfativamente Porto Alegre, sem exagero, pode ser dividida em duas ou três épocas: antes, durante e depois da Borreegard-Riocell, empresa de celulose de origem norueguesa que se instalou no município de Guaíba durante o regime militar, aproveitando-se dos incentivos fiscais e até financiamento governamental. Logo a gigante nórdica mostrou que não viera ao Rio Grande do Sul para "promover o desenvolvimento", como apregoava a sua propaganda. Cínica, sem dar a mínima para população, hostilizada pela imprensa, a Borregard empestou durante anos os ares de Porto Alegre e região metropolitana, não contando a poluição nas águas do Guaíba. Sem usar aqui os equipamentos anti-poluentes que se via obrigada a utilizar em países de Primeiro Mundo, despertou a ira da população e solidificou o movimento ecológico que então nascia, liderado pela Agapan - Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, ainda hoje existente. Nesta matéria do Correio do Povo, de 1978, na época de Breno Caldas, seu proprietário (hoje é da Igreja Universal) vê-se o ódio que despertava. Mais tarde assumindo o nome de Riocell e presidida por um general, obrigou-se a instalar os equipamentos necessários para não exalar o seu "bafo tumular.  

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

A VARIG e os Caravelle em rotas nacionais e internacionais

 

A VARIG - Viação Aérea Riograndense - foi a primeira companhia aérea a nascer no Brasil, em 1927. Durante muitos anos ostentou a honra de ser a maior e a mais eficiente das empresas de transporte comercial de sua área no Brasil, até entrar em processo de falência e sucumbir definitivamente. No início dos anos 60 - como vemos nesta propaganda publicada na Revista do Globo, em 1961 - ela já se preparava para ser a número um, expandindo suas rotas nacionais e internacionais e reforçando sua frota com modernas aeronaves, entre as quais o Caravelle. Note-se que, partindo de Porto Alegre, havia roteiros, quatro vezes por semana, diretamente ao Rio de Janeiro, que recém deixara de ser a capital federal, afora São Paulo e a "Novacap" - Brasília, além disso seguia para Montevidéu e Buenos Aires, conduzindo satisfeitos passageiros que desfrutavam do serviço de primeira qualidade prestado a bordo.

terça-feira, 26 de novembro de 2024

Imobiliária convida as atenciosas senhoras para comprar na beira do Guaíba: 1934

 

Em junho de 1934 o rio Guaíba - que muitos insistem em chamar de lago - era um rio relativamente limpo e propício ao banho. Naquela época a cidade de cerca de 250 mil pessoas não dava as costas ao Guaíba, como hoje ocorre. A zona sul da capital gaúcha já era explorada pelas suas belezas naturais e por suas praias os meses de verão. Como viajar até o litoral era uma aventura, naqueles tempos de poucas estradas, muita gente preferia ficar por aqui mesmo e desfrutar dos encantos de Ipanema e de outro bairro que surgia - o Espírito Santo. As imobiliárias e construtoras apregoavam, em anúncios de jornais, as vantagens de se adquirir um imóvel nestes locais, como se vê nesta reprodução do Correio do Povo. 

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Borregaard, Riocel, pouca gente lembra dessa época

 

Quem conheceu a Porto Alegre do passado sabe que a Borregaard teve um papel vital na história da capital gaúcha. De propriedade de empresários nórdicos que resolveram investir na fabricação de celulose em terras gaúchas, a "fábrica de fedor" empestou os ares da cidade e de outros municípios em volta, a ponto de ser considerada, de longe, a "inimiga pública número um" dos porto-alegrenses. Cínica e mentirosa, escorada em generais do Exército, em uma época de ditadura, a gigante norueguesa acabou por originar um forte movimento ecológico em terras rio-grandenses, do qual ressalta o nome do célebre ecologista José Lutzenberger. Espraiando seu horrível cheiro de ovo podre por toda a capital, a Borregaard, localizada em Guaíba, depois tomou o nome de Riocell e teve, com a redemocratização do país, que instalar equipamentos antipoluentes em sua fábrica e adaptar-se a um realidade que não condizia com a sua visão de uma terra "habitada por índios selvagens" que não mereceriam qualquer respeito. 

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

O incêndio criminoso do Tribunal de Justiça : assim se resolviam as coisas

Pesquisa e texto: V. Minas




   Um sinistro de prejuízos incalculáveis, um divisor na história do judiciário gaúcho, um mistério nunca esclarecido: o incêndio que destruiu o Tribunal de Justiça e a Secretaria do Interior do Estado “ficará nos anais policiais da cidade como um dos mais dramáticos e ruinosos, pois que, entre outras coisas, poderá retardar e até desviar a marcha da Justiça em questões de transcendental importância”, noticiou o Correio do Povo naquela sua edição de domingo, 20 de novembro de 1949.
    O cenário era o “vetusto” prédio da Praça da Matriz, construído ainda na época do Império e chamado então, com evidente exagero, de Palácio da Justiça. O dia era sábado, 19. O horário do acontecido, cinco horas, mostrava uma capital quase deserta, com raros transeuntes e noctívagos nas ruas e alguns motoristas de táxi – ou de “carros de praça” – que faziam ponto nas proximidades. Foram eles os primeiros a avistar um “tênue fio de fumaça” que escapava do edifício e rapidamente se transformava em “grossos e assustadores rolos negros que irrompiam pelas frestas do portão principal e pelo teto, já então lançando para o ar um cone de chamas”, conforme descrição do Diário de Notícias. Por volta das 5h15min a parte principal da construção parecia “um vulcão em plena ebulição”. Às 5h30min mais nada havia a se fazer. A fumaça, o crepitar do fogo, o desabamento de vigas, ofereciam um “espetáculo dantesco” aos circunstantes. 
   Mais de dez horas depois, auxiliados por populares e voluntários, os bombeiros das quatro unidades que compareceram ao local ainda apagavam os últimos focos. Comandados pelo tenente Jarci de Queiroz, eles perderam a batalha por questão de minutos: já no início do combate um dos hidrantes falhou, permitindo que as chamas se alteassem novamente de maneira incontrolável. Pior mesmo foi a falta de uma escada mecânica que atingisse o segundo andar, atestando a precariedade dos equipamentos da corporação.
SEM VIGILÂNCIA – A despeito de ser um dos mais vitais prédios públicos do Estado, o Tribunal da Justiça e a Secretaria do Interior estavam sediados em instalações acanhadas que datavam de 1870 e nem de longe condiziam com a sua importância.  Juízes chegavam até mesmo a fazer fila a fim de concederam audiências em suas precárias salas e dezenas de advogados que por ali circulavam, bem como o quadro de funcionários permanentes ou dos cartórios, acomodavam-se como podiam em exíguas repartições.
   Outro fato lembrado dizia respeito à absoluta ausência de vigilância, já que não havia sequer um guarda destacado para a ronda da noite. Dias antes um funcionário havia notado pegadas suspeitas nos seus corredores e que convergiam justamente para o local onde o fogo supostamente teria iniciado. Também se constatou que havia massa na fechadura, indicando que alguém havia tirado um molde da chave para entrar no local sem ser percebido. Tais hipóteses, no entanto, foram acrescidas de outras, dos técnicos do Instituto de Polícia Técnica: eles concluíram que o foco inicial do incêndio teria sido "a sala de cafezinho" da Secretaria do Interior: lá existia um “bico de gás” e que teria ficado aceso durante a noite.
    Quanto aos prejuízos, não somente para a Justiça como também para o funcionamento da Secretaria do Interior, foram imensos e dificilmente mensuráveis. Um bombeiro contaria mais tarde a um repórter que havia, por sorte, salvado o dossiê de um processo volumoso. Ao entregá-lo a um funcionário do Forum este, ao ler na capa o nome de uma parte envolvida, jogou os documentos de volta às chamas... Um dos mais importantes cartórios de crime – onde estavam processos sobre a colocação de bombas Molotov e outros que diziam respeito ao Partido Comunista Brasileiro (colocado na ilegalidade apenas dois anos antes pelo governo Dutra) foi totalmente destruído, apesar de ser um dos últimos a ser atingidos pelo fogo. Outros milhares de documentos e ações foram igualmente consumidos ou seriamente afetados. Processos de heranças familiares, partilhas de bens e inúmeros vindos do interior do Estado, em grau de apelação, também acabaram destruídos, bem como 40 mil cruzeiros em dinheiro – queimados ou, talvez, surrupiados.
    Os prejuízos culturais não foram menores. A queima total da biblioteca do Palácio da Justiça foi uma das consequências mais irreparáveis para a cultura do Estado, já que esta era considerada uma das mais completas do país em sua área, com obras raras do direito e sentenças antigas lavradas em latim e caprichosamente encadernadas. Já os documentos de casamentos – cujas cerimônias cíveis aconteciam em uma das dependências do edifício – não foram afetados pois eram guardados em um edifício próximo e não no Tribunal. Até mesmo os matrimônios programados para aquele dia, sábado, não precisaram ser cancelados, apenas sendo transferidos para os cartórios do registro civil. A situação da Secretaria Estadual do Interior – que funcionava em parte do casarão que dava para a Rua Riachuelo – tinha agravantes e foi descrita como um “prejuízo incalculável” devido aos processos que por ali transitavam – convênios entre o Estado e prefeituras do interior, bem como com vários corpos consulares e a junta comercial. De parte de tais documentos dependiam a Repartição Central de Polícia, o Departamento das Prefeituras Municipais, o Arquivo Público, a Junta Comercial, a Brigada Militar e até mesmo a Biblioteca Pública ali vizinha.
    Com a destruição do edifício do Tribunal de Justiça os serviços judiciários gaúchos sofrerem um desarranjo que levou meses para ser reparado, se é que isto era possível. Certamente intencional, o incêndio foi objeto de muitas discussões nos meses seguintes. O Diário de Notícias insistiu em seu caráter criminoso, muito embora a deficiente polícia técnica da época não tenha conseguido provar tal fato. Meses depois, no ano de 1950, um tipo estranho, um vigarista e mitômano de naturalidade espanhola, o “Major Aragón”, e que estava preso em São Leopoldo, bradou aos jornalistas que havia sido ele o autor do sinistro. Mas a história era por demais inverossímil para ser levada a sério. No dia 23 de agosto de 1952, sábado, tal personagem foi assassinado a tiros por outro detento no pátio da Casa de Correção – um crime encomendado ou talvez motivado por ciumeiras ou rixas com outros detentos.
    Em 1949 Manoel Frederico Gonzales de Aragon estava preso em São Leopoldo, identificado com outro nome, acusado de estelionato e que já tinha passagens por outros presídios brasileiros, entre os quais o de Curitiba, de onde fugira usando uma farda de major do Exército – o que lhe valeu a alcunha de “major Aragón”. Nascido na Espanha, calvo, ar inofensivo e de boa cultura, Aragón era um vigarista especialista em criar “sociedades anônimas”, levando todo o dinheiro arrecadado fraudulentamente. Em estranha coletiva convocada pelas autoridades policiais ele afirmou ter fugido da prisão do Vale dos Sinos (fugido e depois retornado...) com a finalidade de roubar um famoso processo criminal para assim chantagear as partes interessadas e conseguir muito dinheiro. Ele também disse ser o autor do incêndio da Repartição Central de Polícia – nas duas versões, poucos repórteres de fato acreditaram no que afirmava. Mais tarde o Major Aragon disse ter sido torturado pela polícia para que assumisse a autoria dos dois sinistros, algo igualmente discutível em se tratando da volatilidade da personalidade do réu. 
   O certo é que, se houve muitos prejudicados com o episódio (incluindo quem trabalhava no Foro e perdeu o emprego e fonte de rendas), outros tantos também auferiram grandes vantagens com a destruição de processos e acusações. Mais tarde se tentou estabelecer uma ligação entre o incêndio do Tribunal, bem como o da Repartição Central de Polícia, com um grande aumento da criminalidade em Porto Alegre no ano de 1950.


   Até a construção de uma nova sede para o judiciário rio-grandense, os cartórios e repartições passaram a funcionar de maneira improvisada em diferentes locais da cidade, tais como o grupo escolar Paula Soares, na Rua General Auto, e em casas da Rua Duque de Caxias, onde antes funcionava a Secretaria da Agricultura.  No mesmo local do prédio incendiado seria construído mais tarde o Foro Central da capital dos gaúchos.