Hoje, seguir para Florianópolis no verão - e em qualquer época do ano - é uma moleza de poucas horas de carro, de ônibus ou avião. Porém, na década de quarenta, se tratava quase de uma epopéia, em veículos pequenos, desconfortáveis e sujeitos a atoleiros e todo tipo de percalços. A BR-101 ainda não existia e o asfalto muito menos - tudo por terra. Nesta propaganda do Correio do Povo se anuncia a linha que seguia por Araranguá, nas quartas e sábados. O que não se diz é a duração do trajeto, algo, aliás, impossível de saber.
Jornal do bairro Jardim Botânico. Porto Alegre, RS. Brasil. Fundado em 25 de março de 2019. jornalofelizardo.blogspot.com - email: vitorminas1@gmail.com
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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024
O misterioso e suspeito incêndio do colégio Julinho, no final de 1951
Antigo prédio do Julinho, arrasado pelas chamas e depois demolido
Pesquisa e Texto: Vitor Minas
Talvez hoje, em meio a tantos fatos ruins e à indiferença geral, a destruição de um grande colégio público não causasse comoção a Porto Alegre. Porém no início dos anos cinquenta o ocorrido com o Colégio Estadual Júlio de Castilhos, o “Julinho”, consternou verdadeiramente os habitantes da Capital, zelosa dos seus valores e orgulhosa do alto padrão educacional de um estabelecimento modelo que simbolizava o que então o Rio Grande do Sul tinha de melhor: o seu mais avançado padrão civilizatório frente aos demais Estados e o genuíno orgulho que isso trazia ao povo gaúcho. Público e gratuito, com um ensino considerado de excelência, o colégio dava acesso direto ao terceiro grau e nele estudaram, entre tantos, nomes que depois de tornaram famosos ou notórios em muitas áreas, incluindo Leonel Brizola, Paulo Brossard, Paixão Cortes e Barbosa Lessa – uma elite intelectual e pensante vinda democraticamente das muitas camadas da sociedade gaúcha. Foi também no Julinho, em 1948, que iniciou o Movimento Tradicionalista Gaúcho, embrião dos milhares de CTGs que se espalham pelo mundo.
O incêndio foi marcado pela forte suspeita – na verdade, uma certeza – de ter sido um ato intencional e premeditado, “praticado por mãos criminosas”, como disse o Correio do Povo, ou por um “piromaníaco insano”, um “perigoso tarado que vê seus instintos doentios despertar em determinadas épocas do ano”, conforme escreveu o Diário de Notícias. Era, desde 1947, o quinto grande prédio público (incluindo aí a Cooperativa dos Funcionários Públicos) a queimar de forma semelhante. Em nenhum deles o inquérito policial apontou a autoria e muito menos se estabeleceu uma ligação direta entre os fatos.
A destruição daquela que era considerada a unidade de ensino mais avançada e democrática em todo o Estado aconteceu na primeira hora da madrugada de 16 de novembro de 1951, sexta-feira, em pleno feriadão da Proclamação da República, uma noite ventosa na cidade que ainda mal se recuperara do renhido combate eleitoral, no dia primeiro, entre Leonel Brizola (PTB) e Ildo Meneghetti (PSD) para o cargo de prefeito municipal – Meneghetti virou o placar e venceu ao final com diferença de apenas mil votos. Os dois, aliás, engenheiros formados pela Escola de Engenharia e ligados à história do Julinho (Brizola estudou nele). Curiosamente, naqueles dias uma greve geral mobilizava os estudantes universitários de todo o Brasil. Radicalmente politizado, o efervescente Julinho repercutia internamente isso tudo.
Também naquele início do ano de 1951 os alunos haviam deflagrado uma greve pedindo o cancelamento da decisão de separar os rapazes das moças – um prédio da Rua Doutor Flores já teria sido alugado para abrigar as alunas, relatou o radialista, ex-vereador e então aluno Lauro Hagemann em depoimento para o livro “Julinho: Cem Anos de História”, organizado pelos professores Paulo Ledur e Otávio Rojas Lima (Editora AGE) no ano de 2000.
Motivos ou pretextos à parte, o certo é que em poucas horas a imponente construção, inaugurada em 1908 na Avenida João Pessoa, defronte à Escola de Engenharia, ao qual era ligada, e à vizinha Faculdade de Direito, veio abaixo devido à espantosa rapidez das chamas. Os prejuízos, porém, eram ainda bem maiores para toda a cultura do Rio Grande do Sul, já que da biblioteca – com valiosíssimos e raros volumes de livros dos séculos XVIII e XIX – também nada havia restado. O mesmo aconteceu com o museu, um dos mais completos do Rio Grande.
Dias depois o jornalista Wilson Müller, 22 anos, ex-aluno da instituição, publicou no Diário de Notícias uma crônica em que lamenta “o que nunca imagináramos pudesse acontecer”: “(...) Quem não conheceu o Julinho? Naquele casarão velho da João Pessoa formou-se a consciência democrática de milhares de gaúchos. A alma farroupilha vibrou dentro do Colégio Júlio de Castilhos, desde 51 anos passados, quando, no ofuscar do século passado e no dealbar do presente, levantou-se o nosso colégio como a barreira invencível do espírito indomável do estudante gaúcho. Quem por ali passou jamais o esquecerá. Quem viveu algum tempo no “Julinho” sempre dirá, com um orgulho que só nós podemos ter: “Eu estudei no Julinho”. Basta isso para endossar a vida estudantil de um homem. Assembleias barulhentas e tumultuosas. Greves contra os professores. Abaixo-assinados de protesto contra esta ou aquela medida. Discussões intermináveis sobre a teoria do conhecimento e sobre a quarta dimensão. Passeatas de regozijo e de protesto. Exames orais e escritos feitos sem conhecimento da matéria. “Colas” e provas anuladas. Colóquios amorosos nos corredores, às escondidas dos professores e perto dos professores. Fim do curso e uma sincera homenagem aos que nos guiaram lá dentro. Um vestibular. A faculdade. Um agradecimento eterno. Lodeiro, Melo, Marieta, Tristão, Abílio, Ripol, Ataualpa, Zilá, Damasceno, Morais, Orlando, Paixão e o Machadinho são nomes que ligaram nossa mocidade à vida futura e são a garantia do patrimônio moral do Colégio Estadual Júlio de Castilhos. Adeus, Julinho...”
SINISTRO ANUNCIADO – Na realidade sabia-se que, mais cedo ou mais tarde, o colégio pegaria fogo – só não se poderia precisar em que circunstâncias isso ocorreria. Uma simples questão de tempo e de oportunidade.
Com efeito, por diferentes vezes o Julinho esteve às voltas com malogradas tentativas de incêndio, a última das quais na quarta-feira, 14. À noite, nessa data, uma das serventes encontrou quebrados os vidros da porta da secretaria, situada ao lado do prédio principal. Dentro, jogado no chão, estava um pano embebido em gasolina que só não pegara fogo devido à forte umidade decorrente das chuvas caídas no dia anterior.
Ciente do perigo que rondava a instituição, o diretor José Lodeiro solicitou policiamento às autoridades estaduais, algo que deu muito a falar nos dias seguintes: a Polícia Civil, em nota emitida por seu chefe-geral, Germano Sperb, confirmou que recebera o pedido e havia designado um guarda-civil para o policiamento do local, mas que este, dias antes, havia sido dispensado da tarefa pela direção, embora estivesse presente na noite do incêndio – tanto que teria sido o primeiro a comunicar o fato a policia e aos bombeiros. Lodeiro, por sua vez, desmentiu categoricamente tal afirmação, garantindo que, por sua própria conta, o vigilante deixara de comparecer ao serviço, fazendo com que ele, Lodeiro, costumasse vistoriar o colégio antes de dormir – o diretor residia nas proximidades. O Grêmio Estudantil, por sua vez, saiu oficialmente em apoio à direção e acusou a polícia de “ter colaborado positivamente com o incêndio”, conforme nota assinada pelo presidente do Grêmio, Onofre Quadros. Também o resultado do trabalho da perícia foi diferente da versão de muitas testemunhas e até mesmo dos bombeiros. Para os primeiros, o sinistro poderia ser, quem sabe, ocasional, enquanto direção e estudantes batiam-se pela tese única da intencionalidade – certamente a mais plausível. O certo é que a chave-geral da energia elétrica havia sido desligada durante o feriado, dia em que o prédio estava deserto, e isso afastava a possibilidade de um curto-circuito interno.
Segundo testemunhas, o fogo foi avistado das ruas e residências vizinhas à meia-noite de quinta-feira ou aos quinze minutos da madrugada de sexta-feira, quando as chamas já tomavam conta do telhado, espalhando-se com incrível rapidez em virtude dos ventos que sopravam. As mesmas pessoas afirmaram ter visto três focos na cumeeira – nas extremidades e no meio da cobertura, onde se elevava a bela cúpula central. Mais tarde, em depoimentos aos jornais, alguns estudantes (dentre os primeiros a ver as chamas) negaram que isso fosse verdadeiro e asseguraram ter visto apenas um único foco. Em um “espetáculo contristador”, os repórteres anotaram que as folhas de zinco que cobriam as cúpulas “desprendiam-se em brasa sobre a cerca de grades de ferro pontiagudas.”
Durante quatro horas cerca de 50 bombeiros vindos principalmente da estação da Avenida Júlio de Castilhos enfrentaram algumas dificuldades operacionais, já que o hidrante mais próximo mostrou-se dotado de pouca vazão de água e foi suprido pelos demais instalados na avenida, defronte ao necrotério e também na esquina da Rua Avaí. Quatro veículos da corporação foram posicionados nas imediações enquanto uma grande multidão, vinda de várias partes do centro, se comprimia em volta a fim de presenciar aquele momento histórico. Grossos rolos de fumaça chamavam a atenção dos transeuntes que passavam pela Avenida João Pessoa, nas proximidades da antiga Praça do Portão. Chefiando a operação de combate às chamas estava o oficial-aspirante Jesus Linares Guimarães – anos mais tarde comandante geral da Brigada Militar e participante das ações do edifício Renner em 1976.
Depois de muitos esforços os bombeiros conseguiram isolar o local e evitar a propagação do fogo para a Escola de Engenharia – que teve apenas duas janelas atingidas. Linares disse ter estranhado a celeridade com que as chamas se espalharam por todo o segundo pavimento, mas deu graças pelo fato de um dos seus soldados ter escapado por pouco do desabamento de um dos tetos – se atingido, seria morte certa.
Ao término de tudo dezessete salas de aula, mais a biblioteca e o museu, haviam se transformado em cinzas fumegantes. Por sorte quinze valiosos aparelhos de microscópio e outros de física, emprestados dias antes à Faculdade de Filosofia, escaparam ao cômputo dos prejuízos gerais, calculados em cerca de 10 milhões de cruzeiros. No dia seguinte, entre tantos curiosos ilustres, visitaram o local o governador Ernesto Dorneles, o secretário da Educação, Júlio Marino de Carvalho, o professor Mabilde Ripoll, superintendente do ensino secundário, e o reitor da Universidade do Rio Grande do Sul, professor Alexandre Martins da Rosa. O governador prometeu a imediata construção de um novo prédio para o Julinho (que já fazia parte dos planos), desta vez localizado na Praça Piratini, também na João pessoa. Enquanto isso as aulas passariam para o prédio do Arquivo Histórico do Estado, na Rua Riachuelo.
Felizmente ninguém morreu ou saiu seriamente ferido em consequência do incêndio do Julinho naquela noite-madrugada de quinta para sexta-feira. Porém uma semana depois, no início da tarde de 26 de novembro, segunda-feira, o operário Antonio José Nascimento, 27 anos, branco, casado e residente no Passo da Cavalhada, na Capital, pisou em falso quando trabalhava na demolição do primeiro andar. Ele caiu de uma altura de cinco metros e morreu no Hospital de Pronto Socorro, minutos depois.
terça-feira, 6 de fevereiro de 2024
As emissoras de rádio mais ouvidas em Porto Alegre em 1961
Em abril de 1961 o Instituto Brasileiro de Opinião e Estatística, IBOPE, divulgou o resultado de uma pesquisa com os ouvintes de rádio em Porto Alegre, a qual constatou que a Rádio Gaúcha - a pioneira no setor - despontava em primeiro lugar, seguida de perto pela Farroupilha. Em terceiro lugar vinha uma rádio muito importante e ligada à história do radialismo em Porto Alegre, a Itaí, que não mais existe. Quarta emissora a surgir na Capital, no início dos anos cinquenta, a Itaí deixou saudades. A reprodução é da Revista do Globo - que também não mais existe.
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024
1958: inaugurada a ponte móvel sobre o rio Guaíba
Enquanto surge (surgiu, na verdade pois está pronta e em operação) sobre o rio Guaíba (que muitos insistem em chamar de lago), é bom recordar o que ela, a primeira, representou para o Rio Grande do Sul quando foi aberta ao trânsito, no dia 28 de dezembro de 1958: a ligação efetiva entre Porto Alegre e a Zona Sul do Estado, via BR-290, antes muito dificultosa e onerosa. A ponte chama-se oficialmente Ponte Getúlio Vargas e é um das quatro pontes da Travessia Régis Bittencourt, que começa em São Paulo e termina no Sul. A obra tem 1,1 km de comprimento e uma altura máxima de 24 metros, por onde trafegam em média mais de 30 mil carros ao dia.
Nesta reprodução do Correio do Povo noticiou-se a chegada, por navio, de parte do vão móvel, içado, caracteriza a ponte ao dar passagem aos navios, há exatos 65anos.
sexta-feira, 26 de janeiro de 2024
Para Pelotas e Rio Grande, vá pelos navios vapores da Navegação Cruzeiro
quinta-feira, 25 de janeiro de 2024
Discos Voadores nos céus de Porto Alegre
O famoso caso Roswell, ocorrido nos Estados Unidos, é de 1947, e até hoje é objeto de discussão a respeito da possível queda de uma astronave de outro planeta, com a morte de seus tripulantes. Porém é a partir de 1950 que a aparição de discos-voadores se torna realmente um fato que repercute intensamente na imprensa, não apenas norte-americana, como em muitos outros países. No Brasil - e no Rio Grande do Sul - não foi diferente. No agitado ano de 1954, marcado pelo suicídio de Getúlio Vargas e, em Porto Alegre, pela tentativa de fuga de mais de mil presos da Casa de Correção, o Presídio Central da época, o avistamento de estranhas naves de origem não identificada tornou-se frequente na imprensa, como se vê nestas reproduções do jornal Correio do Povo, da capital gaúcha, de novembro de 1954.
Carmen Miranda gostava de Porto Alegre e aqui dava "canjas"
quarta-feira, 24 de janeiro de 2024
O primeiro helicóptero que pousou em Porto Alegre: 1947
terça-feira, 23 de janeiro de 2024
Velhos tempos, outros tempos, mais simples, comunitários e rurais
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| Este é um dos prédios mais antigos do Jardim Botânico, no tempo da antiga Vila São Luís. |
* Em 2008 realizei uma série de entrevistas com antigos moradores do bairro, as quais, depois, no ano seguinte, publiquei em forma de jornal comemorando os 50 anos da instalação oficial do Jardim Botânico. Esses dias, remexendo antigas caixas, achei o bloco de anotações das entrevistas que fiz e resolvi aproveitá-las nesta matéria saudosista e meio histórica. Alguns das fontes aqui citadas já faleceram, mas outras estão vivas. A foto do sr. Ruben eu retirei da sua página no Facebook. Ele não mora mais no JB. (V. Minas)
Os tempos eram outros – bem mais primitivos e pacatos, com pouco conforto e raras facilidades (pelos padrões atuais), porém muito mais solidariedade entre as pessoas. Assim alguns dos moradores mais antigos do Jardim Botânico relembram um passado em que o próprio nome do bairro era outro – chamava-se Vila São Luís. Os seus poucos habitantes conviviam então com uma paisagem que, em muitos aspectos, lembrava uma cidadezinha do interior, se é que as cidadezinhas do interior ainda são as mesmas.
Anos quarenta, cinquenta, sessenta. Espremido entre o Partenon, do outro lado do Riacho, e Petrópolis, mais acima, a Vila São Luís era, realmente, uma simples vila, a “Várzea de Petrópolis”, local de topografia baixa e muitas casinhas de madeira nas quais moravam famílias de modestos funcionários públicos, além de chacareiros, verdureiros, plantadores de flores e de agrião (o solo úmido facilitava o cultivo).
IPIRANGA CHEGOU – O crescimento do Jardim Botânico ocorreu de forma paralela à construção da avenida Ipiranga, a grande obra federal de canalização do tortuoso Riacho, ou Dilúvio (era a porta de entrada das grandes enchentes na Capital), depois rebatizado para “Arroio Ipiranga”, empreendimento que durou décadas. Mais antigamente ainda, no início do século vinte, o local onde está o JB era chamado de “Campo do Simião”, em referência ao primeiro proprietário das terras. Em 1914 – início da Primeira Guerra Mundial – chegaram da Europa algumas famílias russas, fazendo com que a localidade ficasse conhecida como “Vila Russa”. Eles se instalaram na parte mais alta, mais ou menos onde hoje é o Círculo Militar. Depois da Segunda Grande Guerra e do início da “guerra fria”, o termo “russo” passou a ter uma conotação subversiva, digamos assim, e foi deixado de lado. Dos russos originais que aqui chegaram não restou mais ninguém – ao menos que se saiba.
BONDES E GAIOLAS - Antigo morador do Jardim Botânico (morava na rua Surupá), Ruben Carlos Simionovschi, lembra como eram aqueles tempos: “Em 1950, quando eu tinha oito anos, meu pai comprou uma casa na rua Guilherme Alves. Naquela época as ruas do bairro eram sem calçamento e para nos locomovermos tínhamos a opção de ir até a Protásio Alves, na esquina com a Barão do Amazonas, ou seguir até o final da linha do bonde que ficava na esquina da Carazinho. Os bondes eram do tipo “gaiola”. Havia então meia dúzia de chalés na Felizardo e umas oito ou dez casas na Salvador França. Outra opção de transporte era pegar um micro-ônibus na Barão, esquina com a Felizardo, mas a opção preferida era mesmo o bonde para o centro, a passagem era mais barata”, rememora Ruben. “Depois de algum tempo a linha de ônibus foi estendida até a esquina da rua Serafim Terra com a Felizardo”.
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| Ruben lembra dos bondes e das plantações de agrião e de flores que existiam no bairro. |
OTÁVIO DE SOUZA – Em abril de 1952 iniciaram as aulas na Escola Estadual Professor Otávio de Souza, na rua Felizardo, com apenas sete salas de aula. O colégio foi oficialmente criado em 1942, apenas para educação primária – e somente em 1947 passou a se chamar Professor Otávio de Souza, hoje na rua Afonso Rodrigues.
Seu Pedro Ceratti ainda não morava no JB quando isso aconteceu. Natural de Júlio de Castilhos, ele chegou ao Botânico bem jovenzinho – tinha 20 anos.
“O bairro era cheio de plantações de agrião, um tempo bom. A gente fazia compras no Armazém do Caboclo, na Barão, e na Dona Versa, na Valparaíso. Eu ia nas festas do Clube Americano e assistia aos jogos do Universal e do Leal Santos, e também ia ver os filmes no Miramar, na avenida Aparício Borges. Lembro que a Ipiranga vinha só até a Salvador França, não subia até Petrópolis, ali tudo era mato. Naquele tempo a gente tomava banho e pescava no arroio Dilúvio e jogava bola onde hoje é o Bourbon. Era uma vida bem diferente”.
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| Seu Pedro (já falecido) chegou aqui em 1959: "Era uma vida muito diferente." |
PAULÃO E SEU ARMAZÉM – Paulo Soares dos Santos (faria 81 anos em 2024), uma das figuras populares mais conhecidas do JB, foi um empreendedor local de sucesso, com seu bar e armazém na rua Valparaíso, onde hoje há uma concessionária de motos. “Cheguei aqui com cinco anos de idade, vindo do interior de Viamão, meus pais vieram de carreta e fomos morar na Barão, depois nos mudamos para a Travessa Municipal, na antiga Vila Russa”, historia ele, citando também o Armazém do Caboclo, o Armazém Parafuso, na Salvador França: “O dono tinha o apelido de Parafuso, vendia querosene, alface, queijo, tudo”. Assim como tantos, recorda da Dona Versa e do Estrela Dalva, na rua Inocência.
“Todos se conheciam e frequentavam os mesmos lugares. Nos anos cinquenta as famílias daqui, que eu lembro agora, eram os Correa, os Lucena, os Santos, os Pieretti, os Maraschin. Existiam bailes de carnaval, canchas de bocha, pescarias no Dilúvio, a gurizada caçava no mato onde hoje é a Fundação Zoobotânica, subindo para a Tarso Dutra, que ainda não existia. O médico do bairro era o Doutor Francisco, atendia em casa, morava na Bento Gonçalves. O pessoal daqui ia para a Bento fazer as compras maiores, lá tinha muitas ferragens, além do restaurante Tico-Tico e do Poletto”.
Paulão não esquece da ponte de madeira que havia entre a Salvador França e a Ipiranga – “a gente pescava embaixo, e do outro lado havia uma vila” – e da fábrica de carroças do seu Lúcio, na rua Guilherme Alves, defronte onde está a igreja católica: “Eles faziam carroças e tinha uma ferraria do lado, para ferrar os cavalos. Era um movimento direto com muitas carroças e cavalos.”
Nesse tempo pacato e sem esgoto cloacal, o bairro nem sempre cheirava muito bem, brinca o comerciante, reportando-se aos famosos recipientes em forma de cubos colocados debaixo das privadas e que acumulavam as fezes das famílias. Depois de alguns dias, eram lacrados e recolhidos pelos “cubeiros”, ou “cabungueiros”, assim como hoje se faz com os banheiros químicos: “O cheiro era horrível”. Eles vinham em caminhões e “às vezes demoravam”.
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| Joel: um carnaval muito animado, com blocos de foliões e fantasias improvisadas. |
AMERICANO – Rua Serafim Terra, 49. Este era o endereço do Clube Recreativo Americano, onde aconteciam os bailes e as festas do bairro. Joel Duarte, 69 anos (idade em 2008. Joel, infelizmente, já faleceu), contador aposentado e morador da rua Itaboraí, participou de muitas delas e pode enumerar de memória os outros pequenos clubes do JB, estes dedicados ao futebol – o Amazonas, o Universal, o Leal Santos, o Cometa, o Ararigbóia e, mais tarde, o São Pedro.
Ele também recorda das pequenas fábricas que existiam no bairro. “Tinha uma fábrica de carroças, uma de gaiolas, uma de rapadura e outra de doces. Nos anos cinquenta e sessenta as missas eram realizada no hall de entrada do colégio Otávio de Souza e depois na entrada do Jardim Botânico, onde fiz a minha primeira comunhão com o frei capuchinho da igreja de Santo Antônio. Recordo que na Serafim Terra existia o clube São Luís, onde a gente jogava ping-pong, bocha, cartas, futebol e se fazia churrascos e também bailes. A fábrica de rapaduras era na Guilherme Alves, era um produto de ótima qualidade. Já a fábrica de sabão era na Roque Gonzales. E no Botânico, na hoje Fundação, havia também grandes estufas de cactos, praticamente uma floresta que ia ao longo de toda a sua extensão, naquele tempo, entre a Ipiranga e a Cristiano Fischer e Tibiriçá com Salvador França e outras ruas, terras que hoje pertencem ao hospital da PUC, por casas e até pelo Oitavo Distrito de Meteorologia.”
O aposentado também lembra os antigos carnavais do bairro: “Eram muito animados, inclusive tendo eleito uma vez a Rainha do Carnaval de Porto Alegre. Aconteciam na Surupá, na Felizardo e na Barão, o povo se divertia de qualquer jeito, inventavam fantasias ao gosto de cada um, havia blocos formados.”
domingo, 21 de janeiro de 2024
Borregaard, a multinacional nórdica que empestou os ares de Porto Alegre
Quem conheceu a Porto Alegre do passado sabe que a Borregaard teve um papel vital na história da capital gaúcha. De propriedade de empresários nórdicos que resolveram investir na fabricação de celulose em terras gaúchas, a "fábrica de fedor" empestou os ares da cidade e de outros municípios em volta, a ponto de ser considerada, de longe, a "inimiga pública número um" dos porto-alegrenses. Cínica e mentirosa, escorada em generais do Exército, em uma época de ditadura, a gigante norueguesa acabou por originar um forte movimento ecológico em terras rio-grandenses, do qual ressalta o nome do célebre ecologista José Lutzenberger. Espraiando seu horrível cheiro de ovo podre por toda a capital, a Borregaard, localizada em Guaíba, depois tomou o nome de Riocell e teve, com a redemocratização do país, que instalar equipamentos antipoluentes em sua fábrica e adaptar-se a um realidade que não condizia com a sua visão de uma terra "habitada por índios selvagens" que não mereceriam qualquer respeito.
sexta-feira, 19 de janeiro de 2024
O casamento de Leonel Brizola: março de 1950
Com apenas 28 anos, mas já deputado estadual pelo Partido Trabalhista Brasileiro - do qual era uma das mais promissoras lideranças regionais - Leonel de Moura Brizola saiu na página social do Correio do Povo naquele dia 3 de março de 1950: dois dias antes o jovem político e engenheiro casara-se, em Porto Alegre, com Neusa Goulart Brizola, que vinha a ser irmã de João Goulart - futuro presidente do Brasil, deposto em 1964. Uma importante personalidade (na verdade, padrinho do enlace) se fez presente: Getúlio Vargas, também natural da terra da noiva, São Borja, onde vivia retirado na sua fazenda do Itu (localizada no município de Itaqui e não São Borja). O casal seguiu em viagem de lua-de-mel "para o Prata", como informou o CP. A reprodução é do Arquivo Histórico Municipal Moysés Vellinho
quinta-feira, 28 de novembro de 2019
Doação de ar condicionado para o posto da Brigada do Jardim Botânico

A Associação Sul Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Aquecimento e Ventilação (ASBRAV) realizou, nesta segunda-feira (25), a entrega de um aparelho de ar condicionado à 3ª Companhia do 11º Batalhão de Polícia Militar, em Porto Alegre. A doação vai contribuir para o cercamento eletrônico dos bairros Jardim Botânico e Petrópolis. O equipamento de 12.000 BTUs será instalado na sala onde haverá oito monitores de 42 polegadas que precisam de um ambiente climatizado para não superaquecerem.
O presidente da ASBRAV, Eduardo Hugo Müller, ressaltou o objetivo da instituição de contribuir com a segurança pública. Além disso, lembrou o fato de um ambiente com a temperatura adequada contribuir com a qualidade do serviço prestado.
Publicidade
A associada da ASBRAV, Janaina dos Santos Costa, também presente, informou que a sua empresa oferecerá a análise da qualidade de ar de ambiente interior climatizado da 3ª Cia gratuitamente. “Sem um ambiente climatizado, o projeto de cercamento eletrônico não seria possível”, destacou o comandante da instituição, capitão Sérgio Roberto Rocha Machado.
O sistema será interligado com as câmeras de monitoramento de residências, condomínios, empresas e além das já existentes do Município
sábado, 23 de novembro de 2019
Henfil, cartunista que marcou toda uma geração
Republicação
Hoje, em 1988, morria Henfil, o pai da Graúna e de tantos outros personagens. Nesta entrevista, publicada pela revista Caros Amigos, muitos anos depois da sua morte (e que republicamos agora), ele fala da sua infância, da ditadura, do medo da morte e de muito mais.
por Neusa Pinheiro
Neste mês, Henfil faria aniversário, nasceu em 5 de fevereiro de 1944. Morreria de Aids, como dois de seus oito irmãos, Mário e o Betinho. Hemofílicos, receberam na obrigatória transfusão a que se submetiam sangue contaminado. Um quase homicídio de cada um. Henfil morreu aos 43 anos, em 1988. Esta entrevista foi feita em 1983 por Neusa Pinheiro e ficou guardada até agora com a intelectual e socióloga paranaense. Uma entrevista confessional, instigante e,muitas vezes, arrepiante.Ano: 1983. Sertaneja pé-vermelho, bicho do Paraná, resolvi me aventurar: Sampa, o centro nervoso espasmódico desta América. Talvez quisesse me diluir, me dissolver um pouco. Saber mais sobre o desamparo. Comecei chorando sobre o viaduto do Chá, com a chuva fina. Depois fui caminhando até escorrer bem devagar pela grandeza da avenida Paulista. Mundo pequeno. Cruzei um amigo, Ademir Assunção, jornalista, poeta. Sugeriu algumas estratégias de sobrevivência. Escrever, por exemplo. Entrevistar pessoas, ora. De cara, me passou o número do telefone de Henfil. “Henfil? Mas ele mora no Rio...” “Não, não, chegou aqui há poucas semanas, saúde precária, complicações da hemofilia, tratamento no Hospital das Clínicas etc.” Eu jamais havia entrevistado alguém. E agora? Logo o Henfil... Não podia ser o telefone da Rita Lee? Ou quem sabe o do Itamar Assunção, lá na Penha. Já conhecia o “nêgo Dito”, desde Londrina, era mais acessível... Era? Bom, e a Rita... loveLee Rita, como disse a Ná. Mas Henfil, Henfil era um mago desequilibrista. Na década de 70, num Brasil repressivo, desbancava consciências com seus cartuns – tanto o aspirante a uns poucos dias de clandestinidade, com planos cinematográficos de fuga, como o mais atuante e engajado dos democratas. Tanto os normais como os patogênicos, enfim... nem o torturador mais cruel (se lesse, às escondidas, uma tira que fosse, das sacadas “henfilianas”) seria o mesmo no dia seguinte.
A partir do Nordeste (zona de refinada alquimia, onde miséria sempre se transmuta em arte), Henfil criou personagens extraordinárias para retratar, com uma riqueza e um humor sem precedentes, a história surreal de um país inteiro. Henfil. Mineiro nascido Henrique de Sousa Filho, na Vila n¼ 21 de Neves, região metropolitana de Belo Horizonte. Henrique, mesmo nome do pai, também pai do Betinho. Betinho, quase substância do sonho brasileiro, o “sociólogo esquálido”, segundo o gordo Delfim Netto; o primeiro santo ímpio brasileiro, segundo alguns amigos. Aquele que mandou às favas o academicismo estéril com a sua Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida, mobilizando este bruta Brasil.Bom... Henfil. Como discar o número? Dizer não sei que lá? Certo, eu diria que na faculdade a turma da pesada reproduzia, conforme o assunto, algumas tiras da revista O Fradim, no nosso boletim, Bóia Fria. Depois, diria que, na época, revirava a imprensa alternativa em busca das charges, das histórias da Graúna, a pássara magrinha e pretinha, síntese magistral de todas as mulheres, de todos os tempos. Amava a Graúna, ela me humanizava, eu me sentia menos culpada de existir. E ria. Mas também chorava junto. Contaria ainda sobre as cartas que ele escrevia de Nova York pra mãe, dona Maria da Conceição, cartas publicadas pela imprensa daqui. Me ensinaram muito sobre o meu país, me aproximaram mais de minha própria mãe e de minhas filhas.Acabei por não dizer nada disso. Aguardei alguns dias, noites de insônia. E, num repente, liguei. Ele, ele próprio atendeu. Não sei como, nem sei de onde, fui incisiva, direta: meu nome é fulana, peguei seu telefone com beltrano e quero entrevistá-lo com tal objetivo. Alguns segundos de silêncio. Então, ouvi apenas: “Quando?” “Amanhã... (eu mal respirava)... pode ser amanhã às 9?” “Tudo bem”, ele disse. Anotei o endereço, consultei o guia. Era próximo ao HC.
O amanhã seria no dia 26 de outubro de 1983. Manhã limpa, ensolarada. Fui a pé, andando rápido, respirando forte (havia me instalado em Pinheiros, na Capote Valente). Pronto. Havia chegado. O dedo indicador mal tocou a campainha. Ele abriu a porta. Não me lembro do teor do cumprimento. Mas havia muito silêncio. Como aquelas igrejas sozinhas, perto de alguma cidade interiorana. Caminhei pé ante pé, a uma distância mínima dele, talvez um palmo aquém, sentidos a mil. Henfil ia vagaroso pelo corredor; andava com dificuldade (um tigre/quando caminha pelas pedras/vai/como pisando pétalas – o poema saiu de algum lugar dentro de mim, bem ali). Entramos num compartimento claro, sol batendo na janela. “Com licença.” (A voz dele soou como minidecreto lapidar e, num gesto simultâneo, quase imperceptível, retirou do meu rosto os óculos escuros. Até aquele momento, sem me dar conta, eu me escondia.) Imóvel, fixou o olhar no meu, um olhar percussor, operação atômica ligando fios, compondo algum novo sistema de reconhecimento. Claro, não se pode penetrar na natureza do outro sem que a nossa própria se dê a conhecer. Teoria quântica, visão mística, intuitiva... não importa. A entrevista se perdia como significante e entrava em cena uma outra dimensão, um estado inusitado de sincronismo, a certeza de um encontro com jeito de predestinação.Ele se sentou com certo desconforto, inchaço, dores fortes num dos joelhos. Mas o rosto era sereno, desarmado, os olhos já antecipando revelações. Liguei o gravador. E teve início uma estranha viagem. Henfil, o criador, o visionário, fez o retorno e veio trazendo a si mesmo. Desde quando? Me veio um sentimento imperioso de responsabilidade, como uma prova. “Atenção, e toma antes o caminho da direita, no qual está, para te ajudar, o lago da memória.” Com sua brancura quase transparente, poderoso na voz e nas palavras, Henfil me lembrou o mito de Orfeu, que, a bordo da “branca nave” (Argo), partiu em busca de uma consciência mais elevada e ampliada, passando por duras provas. Com seus companheiros (heróis e filhos de heróis, semideuses – que, numa rápida transposição, bem poderiam encarnar a nós próprios, esses argonautas, personagens da arte de Henfil), Orfeu foi à procura do Velocino de Ouro, a essência da alma. Mas esta é uma longa história. Henfil, um alquimista. No seu trabalho, o mágico e o fantástico eram aliados do real, revelações desse sentido plural da alma brasileira, que carnavaliza as próprias penas, que paga a peso de plumas o chumbo que leva. Cada movimento negado a si por conta da hemofilia, ele o forjou e modulou em figuras resplandecentes e ilimitadas, figuras completamente apaixonadas pela vida .Eu não saberia concluir o que escrevo agora. Na despedida, levei o Diário de um Cucaracha como presente. Na dedicatória, o desenho, em caneta Bic, de uma barata imensa e abusada. Voltei pra casa sem saber muito bem o que sentia. Sabia apenas que era uma vez. Uma só. E eu era outra coisa.Ao me aproximar da minha rua, ouvi uma gargalhada endoidecida e fui me aproximando. Era Teresa, uma negra imensa de voz trovejante (cantava o tempo todo) que morava ali, numas caixas de papelão. Teresa estava sentada sobre uma caixa de maçã ao lado de uma banca de revistas. Tinha nas mãos um velho Fradim e, quando cheguei perto, vi. Era a Graúna.
Como você chegou até aqui? É difícil ser Henfil?
O por que fazer, o que fiz... como aconteceu... a palavra que vem é morte, é a palavra-chave; na maioria das pessoas, a consciência da morte vem aos poucos. Tem a morte de alguém, evita-se falar de morte; para crianças, tem os simbolismos: “foi pro céu”, “vovô foi prum país muito distante”, a morte não é uma coisa presente para as crianças em geral, se bem que criança pobre tem essa consciência muito rápido. Pra mim, apesar de não ter nascido na favela, não ter nascido no Nordeste, a consciência da morte era muito precisa porque todo mundo olhava aquela criança que nascia e dizia: “Coitadinha, vai morrer, nossa, que sofrimento vem aí”. Quer dizer, mesmo que não entendesse, eu sentia a barra e a barra era: “Vai morrer por causa da hemofilia”. Naquela época, em 1944, ninguém sabia direito o que era isso nem que o nome era esse; era apenas uma criança que nascia com uma deficiência no sangue, qualquer tipo de machucado o sangue ia saindo até a pessoa morrer. O fruto disso foi que peguei uma consciência de morte, ou seja, de urgência. Viver é uma tarefa urgente porque amanhã é uma coisa que não dá pra pensar, não dá pra fazer planos, hoje é urgente, o amanhã é a morte, ontem, graças a Deus teve ontem! Claro que isso desenvolve um comportamento que nas universidades eles chamam de psicologia: de sensibilidade e de vigilância total. Andar é uma tarefa para profissionais, o mesmo preparo que o Nelson Piquet tem pra pilotar eu tinha que ter pra andar, não podia falhar. A convivência também era uma tarefa pra profissional, equivalente à de qualquer pessoa que participe de uma batalha, na guerra; então, eu tinha que saber rastejar, tinha que parar de respirar, tinha que perder meu cheiro às vezes para não me denunciar e sofrer represália e a morte. Tudo isso fazia parte de uma criança; a sensibilidade vem daí. Se na nossa sociedade a perda dos sentidos – audição, olfato, visão – é uma coisa que “não prejudica” (todo mundo perde isso em função da civilização), se a pessoa continua sua vida normalmente, adquire erudição, vive através dos livros, do cinema, da orientação de um líder, de um pai/mãe, de uma religião, pra mim isso não bastava, eu tinha que ter o controle manual nas minhas mãos e não deixar nunca no piloto automático da orientação externa, porque minha orientação era especial, logo, eu tinha que ter o meu próprio controle. Por isso eu desenvolvi uma visão maior que o normal, uma visão de índio, um olfato de índio, uma audição de índio. Vamos exemplificar melhor: se você ouve um barulho atrás de você, você simplesmente vira o rosto e olha pra constatar o que é. Eu pulo. Me coloco primeiro fora do alcance daquele barulho e depois olho. Um dia eu estava sentado na banheira, lá no Rio, fazendo a barba, quando senti o início de um chiado que prenunciava uma explosão, pulei e atrás de mim explodiu o aquecedor, que não me atingiu. Outra vez, tô dirigindo e tem uma lombada e, sem que eu perceba, jogo o carro no acostamento e atravesso a lombada no acostamento, quando chego em cima do acostamento vem vindo um ônibus na contramão... Os meus sentidos são mais desenvolvidos que o normal. Se você sai comigo de carro vai levar um susto, tomo determinadas atitudes bruscas no volante que pra você são atitudes inexplicáveis, mas logo depois você vê que alguém fez alguma coisa ali na frente que nem eu nem você vimos, mas o corpo sente, que é a coisa de precisar dar o pulo antes. Observo as pessoas, interpreto as pessoas e procuro computar todos os dados rapidíssimo, para prever o comportamento delas, porque, se houver alguma coisa agressiva, eu já tô na defesa há muito tempo, já tô fora do alcance do ataque. Então, essa é a infância, essa é a adolescência e, quando você chega a adulto e que, óbvio, não há tantas ameaças e você tem o conhecimento do teu lado e você vai trabalhar, isso tudo passa pro teu trabalho. Então, quando vou desenhar, vou criar, a minha percepção das pessoas me parece mais disciplinada que a de qualquer outro artista. Quando vou escrever é a mesma coisa, as palavras pra mim não são gratuitas, não consigo usar nenhuma palavra de forma gratuita. Estamos conversando aqui, eu vou escolhendo. É como se eu estivesse lá na frente puxando as palavras. Claro que isso vem dessa deformação de alguém que foi treinado pra andar no meio da selva e de repente anda na cidade e fica feito aquele vovô Fracolino, do Bolinha/Luluzinha, que está sempre cercado pelos índios, quer dizer, eu tô mais ou menos desse jeito. E aí, todo um trabalho, que no caso foi escrever, desenhar, fazer televisão, ele é muito é exato, é muito rápido, é muito sensitivo, é como se eu tivesse me transformado num radar; inclusive acho que não existo como a maioria das pessoas poderia dizer: “Eu sou isso, aquilo etc. e tal” – eu não sei o que é que eu sou. Nesse exato momento, por exemplo, tô tranqüilo porque há exatos dois anos atrás senti as emissões de conturbações até na área política internacional, fico detectando o que os Estados Unidos vão ou não fazer, se houve uma invasão ontem eu já sabia, já estava previsto pelas emissões que eu havia captado. E, se por um acaso o general Newton Cruz se comporta dessa ou daquela maneira no estado de emergência em Brasília, eu já captava porque já sigo as emissões do general Cruz há muitos anos. Se vem uma onda boa, eu também já estou mais ou menos preparado pra ela. Daí se explica por que a maioria das coisas que eu faço está com dez anos na frente, não na frente em termos de vanguarda, não na frente do que aconteceu, mas quase como profecia. Por exemplo, fui pros Estados Unidos entre 1973 e 1975. Senti uma série de coisas lá, todas em relação ao Brasil. Volto, dez anos depois sai Diário de um Cucaracha, um livro que está vendendo paca. Lista dos mais vendidos, primeiro lugar na lista da Veja, mas acho interessantíssimo como as pessoas só agora descobrem algo como o que está escrito no Diário que pra mim já tem dez anos, já passou. Só hoje elas estão tomando conhecimento de como nós somos tratados pelos Estados Unidos, pelas multinacionais, de como somos baratas, de como somos cucarachas, de como eles não nos respeitam. Então, hoje, qualquer brasileiro sabe o que é ser cucaracha, mas isso foi uma vivência minha anos atrás, e o livro fica atualíssimo. Outro dia me escreveu um cara, um adolescente. Tinha uns 15 anos, morava no Rio de Janeiro, logo, era um adulto, e ele lia o Fradinho, adorava, achava muito engraçado mas não entendia nada, e guardava, e hoje, dez anos depois, ele resolve ler e fala: meu Deus do Céu, tudo que falava lá agora eu tô entendendo: o que está acontecendo, inclusive a mudança de atitude das oposições no Brasil, as táticas diferentes mais abertas para uma ação, vamos dizer, dialética ou mais contraditória, mais imprevisível, as oposições hoje no Brasil não têm mais aquela previsibilidade de antigamente e o Fradinho propunha isso dez anos atrás. Foi como quando bolei um filme em 1973 em Nova York, que se chamava Deu no New York Times e que contava o papel da imprensa na criação de fatos que não existiam mas que passavam a existir porque ela publicou; e só hoje, dez anos depois, tenho condições de realizar esse filme porque os produtores estão vendo que o filme é atualíssimo. Essas campanhas que eles vão criando sobre fatos que não existem, mobilizam a opinião pública pra cantar determinada coisa que nem passava pela cabeça do povo cantar, mas aí a imprensa diz que é o que o povo está cantando e o povo passa a cantar. Então acho que qualquer outra explicação sobre por que saí por onde saí e faço o que faço da maneira que faço tem que passar por entender isto: a morte, o sentimento de urgência e a sensibilidade ultradesenvolvida para se proteger da morte.Você se salvou fazendo o que sempre quis.
E as pessoas de que você fala, as pessoas da sua geração, como estão?
Olha, cada vez mais percebo que, na realidade, eu não estava fugindo da escola, não, eu estava fugindo da idade, talvez por isso tenha tomado tantas bombas, pra ficar junto dos que estavam vindo ainda e não tinham feito nenhuma opção. Eu me sentia muito bem com 17 anos, convivendo com a turma de 11, 12 anos, não lembro de me tratarem como mais velho, era igualzinho. E hoje, por exemplo, não consigo conviver com os da minha idade, com os de 39 anos. Ou convivo com os de 70. Meu maior diálogo no momento é com Teotônio Vilela, que está com sessenta e poucos anos, mas poderíamos dar duzentos, porque de cabeça ele tem uns duzentos anos. Tem muitos amigos assim. Agora, só consigo conviver com a turma de 20, 22. Minhas relações acabam sendo fáceis mesmo com a turma entre 16 e 20 anos. Então tem um outro mistério nesse negócio: de novo tô eu na 3» série ginasial, apesar de o meu grupo já estar na universidade! Eles, pra mim, estão mortos, chego lá, nem entro na casa, já sei como é a casa dele, a relação com a mulher, com o filho, com a profissão... ficam vendo televisão como se fosse informação de alta precisão e importância, lêem jornal com cuidado como se estivessem lendo documentos egípcios, decifrando pedras como Champolion, e não percebem o ridículo das suas roupas, dos seus hábitos, das suas casas, dos seus carros, cargos. Eles me constrangem muito e me fazem adoecer. Tenho muitos amigos que eu gosto deles, eles gostam de mim, mas as nossas relações estão cortadas por essa situação. Eles ameaçam a minha saúde, fico muito constrangido. Se a Graúna, quando fica constrangida, tem desarranjo intestinal, eu fico doente também. Não com desarranjo intestinal, mas me dá dores, eu fico com artrite!A Graúna é meio sacana às vezes.
Mas a gente se apaixona por ela... a Graúna tem alguma coisa a ver com o seu lado mulher?
Não. Inclusive, outra coisa em que não embarquei foi esse negócio do lado mulher. Descobri que realmente existem homem e mulher, duas coisas, completamente distintas. Os homens que se fazem mulheres, no caso dos travestis, são bem diferentes delas, são como homens vestidos de mulher, tomam a forma de mulher mas são homens, não adianta, isso faz parte de uma coisa que a natureza nos dá a todos, mas com muita diferença. Por exemplo, esse comportamento infantil é típico do homem... é... a criancice é típica do homem. A mulher nunca foi criança, nunca será criança. Ela vem preparada pra ser algo especial no mundo, que, no caso, é uma coisa irreversível, não há nada que possa evitar isso que é o gerar filhos. Ela é mais preparada numa série de coisas. O filho do homem é a bomba atômica, é o plástico, quer dizer, ele tem que arrumar uma outra forma. Tanto que Deus, que é homem, arrumou barro pra brincar de fazer a Terra, os seres humanos, deu o sopro, aquelas coisas... Nossa Senhora não precisou fazer nada disso. Simplesmente gerou Jesus Cristo, só isso e já fez tudo. O fato de ter um filho torna a mulher um ser adulto desde que nasceu, inclusive ela está pronta pra ter o filho, as meninas desde criança são especiais, você nota. Uma menina é muito mais viva, muito mais rápida, muito mais agressiva, muito mais inteligente do que um menino. Depois, como a disparidade é muita, o que a sociedade faz através das mães, da mulher? Ela paralisa o desenvolvimento da menina. Como? Desviando pra tarefas menores, como cozinhar, lavar, varrer chão, que é uma coisa obrigatória pra qualquer menina, ou desenvolver uma outra sensibilidade, mas fora da convivência social, como balé, piano, violino, quer dizer, paralisam a menina. O menino, por outro lado, é superativado porque em geral ele é muito bobo, é muito devagar, é mais burrinho; ele não é agressivo, é chorão, é superdevagar. Então, o que fazem? Esporte pra que ele fique mais rápido porque, se deixar, o homem fica mais fraco do que a mulher. O homem não tem estrutura física nenhuma; só tem osso, mas é através do esporte que ele fica mais forte, tanto que o intelectual, aquele que não teve uma atividade física, é muito frágil, magrinho, aquela coisa desprotegida, qualquer mulher com um tapa derruba ele. Então, o homem vai desenvolvendo, através do esporte, através do jogo, através do exército, agressividade que não tem. Ele é treinado tanto, que os primeiros dias no exército são um terror pra qualquer homem, mas depois ele é condicionado. À escola, só o homem ia, só o homem tinha conhecimento, lia pra que, quando chegasse aos 30 anos, fosse igual a uma menina de 15. Tanto que, antigamente, homens de 30 se casavam com mulher de 15, porque, se casassem com mulher de 30, eles estavam esmagados. Quando eles chegavam nos 50 anos, a mulher estava chegando nos 30, e eles estavam iguais, o homem era capaz de perceber. É por isso que os casamentos davam mais certo, porque não havia tanta distância de inteligência entre o homem e a mulher. No entanto, ainda assim a mulher efetivamente é mais adulta. O homem endurece o corpo à força dos exercícios físicos, através de um comportamento que a mãe influencia; se vê ele brincando de boneca, de casinha, vai dizer “mariquinha” – a mãe é que fala, o pai nem passa isso pela cabeça, o pai é o meninão que está no bar dando cuspe na parede, bebendo, se exibindo feito qualquer criancinha. Todos os pais são meninos, vão pra campo de futebol, ficam torcendo, gritando e, na hora do gol, carregam os jogadores... isso é o pai. Mas a mãe está ali vigilante, endurece o jogo com o menino, então esse menino vira o que eles chamam de homem, esse homem cumpre as suas funções, mas jamais deixará de ser menino... Ah, sim, a parte mulher, então esse homem se transforma, se embrutece, é morto como ser humano e é capaz inclusive de virar um Fleury, vira um cara esquadrão da morte. Devido a esse treinamento, mataram o menino que ele vai ser até o fim... se deixassem, a gente teria um bando de homens meninos por aí e as mulheres cuidando de tudo. Bem, quando você disse que existe a parte mulher, não é justamente essa coisa a parte menino, essa parte que dizem feminina só existe naqueles meninos que não viraram homem, que não foram transformados, torneados, exercitados para serem homens, homens fortes, homens soldados, homens músculos, homens atletas, homens massa. Só terão essa parte chamada mulher ou chamada menino os homens que escaparam do treinamento. E as mulheres permanecem nas suas funções normais, que é menina que vai ter criança e que, portanto, vai continuar convivendo com os meninos e meninas dentro dessa convivência de sensibilidade, de ter de perceber tudo pra saber se vai chorar ou não vai chorar. O homem que permanece menino, dizem que isso é a parte feminina, não tem nada a ver, apenas eles se salvaram. Agora, os homens estão sendo dispensados gradativamente dessa tarefa de lutar, porque as armas estão substituindo os homens, o soldado não está com nada; hoje, o míssil substitui milhões de soldados, então não precisa preparar o homem pra ser soldado, e com a entrada, por fatores econômicos, da mulher no mercado de trabalho produzindo riquezas etc., essas mulheres começam a deixar de ser infantis, a deixar de ter sensibilidade e, apesar de estarem preparadas biologicamente pra ser mulheres, elas se transformam violentamente, elas se transformam em seres que têm a mesma brutalidade dos chamados homens. Por exemplo, Golda Meir em Israel fez todas as guerras; Indira Ghandi fez todas as guerras e continua com o poder na Índia; guerras, massacres incríveis em cima daquelas tribos. A mulher mais perigosa na política internacional, hoje, é a Margaret Thatcher na Inglaterra, que invadiu as Malvinas, que invade o que for, que tem uma política agressivíssima, está rearmando a Inglaterra internamente, leis de exceção etc. E temos no Brasil uma série de mulheres muito mais perigosas, em todas as áreas, do que os homens; e os homens, como foram dispensados disso, tem muitos homens meninos aí. Então, o homem que está surgindo, o novo homem, é muito mais frágil fisicamente do que o homem de dez anos atrás, e temos aí uma série de mulheres fortes fazendo cooper, musculação; a dança é praticamente um treinamento físico, talvez mais rigoroso que o exército. São mulheres fortíssimas fisicamente e vão virando aquilo que o povo na sua ignorância e sabedoria diz, a mulher está virando homem e é neste sentido: endurecimento, embrutecimento, rigidez, está tendo enfarte, vão ficar carecas, está tendo todos os problemas que o homem tinha quando passava por isso. E diz o povo, na sua sabedoria, que os homens estão virando mulher e, então, sim, aquilo que se chamava mulher, que é menina, a sensibilidade, a brincadeira, você pega qualquer grupo de rapazes, parecem meninos indefesos. Eu vou fazer conferências e descubro que 99 por cento da platéia são mulheres; lançamento de livros, mulheres; quem lê os livros, mulheres; quem está no comando médio das empresas hoje, mulheres; daqui a pouco elas estão no comando total. E veja como esse negócio de lado feminino é uma brincadeira dos meninos cantores que inventaram isso pra serem mais agradáveis à platéia musical, que é constituída de mulheres. São elas que compram discos, então eles ficam paparicando as mulheres com isso “ser menino e menina”, “o meu lado feminino”, e vem o Gil, o Caetano, todas essas pessoas que são fisicamente frágeis são meninos brincalhões, daí as mulheres fortes musculadas ficam adorando e até incentivando isso, porque o homem vai ser desarmado. A mulher percebeu – a mulher especial chamada mãe – que aquele menino que era inofensivo e brincalhão e que ela ajudou a transformar em soldado perigoso, esse homem ameaçava a vida das mulheres, então parece que elas resolveram desativar isso e só vamos ter homens frágeis, pianistas. Os homens ficam estudando estrelas e as mulheres vão trabalhar, vão dominar o esquema financeiro, econômico e vão à guerra, inclusive porque vão estar mais preparadas fisicamente. Quer dizer, há uma questão aí, que falo em termos caricaturais, mas isso que é muito próximo do real e que não há condições de existir no homem o lado feminino.
Henfil, como é que você imagina, hoje, o encontro entre um punk e um hippie da década de 60?
Um encontro entre o shopping e o MacDonald’s. Os dois são produtos fabricados, fabricações de laboratório. Não vejo o menor conteúdo político, social ou econômico nesses dois fenômenos. Eles só existiram porque são inofensivos e portanto interessam, podem ser veiculados pela imprensa, pela televisão... eu já tenho algum tempo de vida pra ter assistido a fenômeno semelhante, como o ator James Dean, de Juventude Transviada – surge um comportamento padrão para que determinados tipos de pessoas possam se enquadrar. Você veja que, de um lado, aqueles que se enquadram como punks usam roupas iguais às de seus idealizadores americanos porque qual é o punk brasileiro, por exemplo? É o trombadinha. Então, o produto estrangeiro veio, os caras adaptam. Agora, nós temos a grande massa que se identifica com um outro modelo que é o do corredor que usa Adidas, esportista, aquelas coisas. Enfim, o que nós temos são fábricas, os criadores se sentam em volta de uma mesa, e a partir do zero criam alguma coisa, fazem o produto e as pessoas vão lá e se enquadram no produto, consomem o produto até que uma nova fábrica tenha no seu departamento de criação uma nova idéia... as pessoas largam aquela e passam a adotar essa. É mais ou menos como se a indústria farmacêutica fizesse o seguinte, e faz: cria o remédio, depois cria a doença. Até fiz um cartum que é assim: um cientista chegando pro dono do laboratório, falando: “O seu remédio foi aprovado, agora o nosso departamento de marketing está estudando a criação da doença”. É isso que a gente vê por aí. Meu filme Deu no New York Times é exatamente sobre isso, como é que você cria alguma coisa que não existe e as pessoas passam a se comportar a partir daquilo. No caso, vou criar uma notícia sobre um fato político, uma nação inteira passa a adotar o que é dito. Você veja como de repente a Sony lança o walkman e todo mundo passa a usar o walkman. Bem, resolveram criar a discothèque. Bolaram todo um plano, depois criaram alguns filmes. Aqui no Brasil juntaram alguns compositores, pegaram As Frenéticas e criaram o Dance, Dance sem Parar... veio a Rita Lee e entrou, veio Gil e entrou, veio Caetano e entrou, todo mundo entrou, prepararam e todo mundo saiu dançando, e pra isso precisava um tipo de sapato que era meio de saltinho alto, meia colorida comprida, um tipo de saia, um tipo de bustiê, um tipo de coisa amarrada na cabeça, óculos multicoloridos; e os homens, a camiseta, com os braços de fora, um cintão, um botinão, uma calça superjusta e colorida, enfim, como o Travolta aparecia no filme. E aí todo mundo saiu consumindo isso. E muito dinheiro foi ganho pelos produtores dessa cultura dita universal. Você pode, inclusive, comprar ações dessa cultura, você vai na bolsa de valores e pede: “Eu quero ações dessa nova cultura que vem aí”. Então eles falam: “A nova cultura é Rhodia”. Você compra ações da Rodhia e aí você vê grandes nomes da música, da literatura e do cinema que passam a ser empregados dessa Sociedade Anônima Cultural.Com tudo isso, fala-se em final dos tempos, final de milênio... como é que você faria um cartum sobre isso? Eu não aceito esse negócio de milênio. De repente, nós aqui, a partir do nascimento de Cristo, comemorando o ano 2000 depois de Cristo. Ora, ora, ora, os orientais estão comemorando o ano 20000, os judeus comemoram não sei se o ano 4000, por aí. Os índios comemoram o quê? Um milhão? As pedras comemoram o quê? O ano 1 trilhão? As águas, que ano estão comemorando? Ora, ora, ora, diria o Teotônio Vilela quando fica irritado, não há milênio coisa nenhuma! Como é que há milênio se neste exato momento nós temos um satélite, maravilha da tecnologia, girando em torno da Terra, que possibilita as comunicações por telefone a distância, o DDI, o DDD; pois bem, vamos pegar um telefone desses, vamos levar esse telefone, como já está sendo levado, como a maravilha da tecnologia, e vamos ao sertão do Piauí e colocamos na boca do sertanejo pra que ele dê testemunho dessa maravilha, dessa tecnologia. O que é que ele vai falar? Ele vai falar: “Socorro!” É pra isso que serve a tecnologia, pra aproximar do primarismo que a gente está vivendo. Então não existe ano 2000, não adianta computador, se ele vai computar quantas pessoas, quantas crianças morrem em mil de fome, de sede, quer dizer, nós não temos água garantida pra todo mundo, apesar de ter água. Então, isso de milênio é mais uma promoção do departamento de marketing da Sociedade Anônima Cultural, é uma farsa. Não entro nessa sociedade anônima, não compro ações do shopping center, não pertenço ao shopping center; as pessoas entram, eu saio. Tem esse negócio chamado década, década de 60, década de 70... que década o cacete! Não existe isso. E eu não tenho 39 anos. Eu tenho milhões de anos, já tenho conhecimento mínimo suficiente hoje pra saber que sou fruto genético de uma ameba. Não sou filho de dona Maria da Conceição. Sou filho de uma ameba há trilhões de anos. Não tenho 39 anos, tenho trilhões de anos.
E tem planos? Quais são seus planos? Planos?
Tenho. Esticar a minha vida o máximo possível – e é possível – desde que eu viva intensamente os meus segundos, então tenho urgência. Meu plano é: se vou morrer, não tenho tempo a perder. E, como sou herdeiro de uma simpática ameba há trilhões de anos, tenho que dar seguimento a isso rapidinho porque não quero ser como a gente vê no Fantástico, aqueles milhões de células, milhões de espermatozóides querendo fecundar alguma coisa; e uns vão parando no meio do caminho, se distraem, não prestam atenção, se perdem e aí não fecundam! Eu quero fecundar alguma coisa, então tô com muita pressa e tô prestando muita atenção porque a minha morte vai se dar no dia em que eu fecundar alguma coisa.
Você tem medo da morte?
Não. Eu tenho medo é de avião.
Obras do Henfil, além das histórias em quadrinhos
Teatro - A Revista do Henfil (em co-autoria com Oswaldo Mendes)
Cinema - Tanga - Deu no New York TimesTelevisão - TV Homem, do programa TV Mulher, na Rede Globo
Livros - Hiroshima, meu Humor (1976) Diário de um Cucaracha (1983) Dez em Humor (coletiva, em 1984) Diretas Já (1984) Henfil na China (1984) Fradim de Libertação (1984) Como se Faz Humor Político (1984) Cartas da Mãe (1986)

por Neusa PinheiroNeste mês, Henfil faria aniversário, nasceu em 5 de fevereiro de 1944. Morreria de Aids, como dois de seus oito irmãos, Mário e o Betinho. Hemofílicos, receberam na obrigatória transfusão a que se submetiam sangue contaminado. Um quase homicídio de cada um. Henfil morreu aos 43 anos, em 1988. Esta entrevista foi feita em 1983 por Neusa Pinheiro e ficou guardada até agora com a intelectual e socióloga paranaense. Uma entrevista confessional, instigante e,muitas vezes, arrepiante.Ano: 1983. Sertaneja pé-vermelho, bicho do Paraná, resolvi me aventurar: Sampa, o centro nervoso espasmódico desta América. Talvez quisesse me diluir, me dissolver um pouco. Saber mais sobre o desamparo. Comecei chorando sobre o viaduto do Chá, com a chuva fina. Depois fui caminhando até escorrer bem devagar pela grandeza da avenida Paulista. Mundo pequeno. Cruzei um amigo, Ademir Assunção, jornalista, poeta. Sugeriu algumas estratégias de sobrevivência. Escrever, por exemplo. Entrevistar pessoas, ora. De cara, me passou o número do telefone de Henfil. “Henfil? Mas ele mora no Rio...” “Não, não, chegou aqui há poucas semanas, saúde precária, complicações da hemofilia, tratamento no Hospital das Clínicas etc.” Eu jamais havia entrevistado alguém. E agora? Logo o Henfil... Não podia ser o telefone da Rita Lee? Ou quem sabe o do Itamar Assunção, lá na Penha. Já conhecia o “nêgo Dito”, desde Londrina, era mais acessível... Era? Bom, e a Rita... loveLee Rita, como disse a Ná. Mas Henfil, Henfil era um mago desequilibrista. Na década de 70, num Brasil repressivo, desbancava consciências com seus cartuns – tanto o aspirante a uns poucos dias de clandestinidade, com planos cinematográficos de fuga, como o mais atuante e engajado dos democratas. Tanto os normais como os patogênicos, enfim... nem o torturador mais cruel (se lesse, às escondidas, uma tira que fosse, das sacadas “henfilianas”) seria o mesmo no dia seguinte.
A partir do Nordeste (zona de refinada alquimia, onde miséria sempre se transmuta em arte), Henfil criou personagens extraordinárias para retratar, com uma riqueza e um humor sem precedentes, a história surreal de um país inteiro. Henfil. Mineiro nascido Henrique de Sousa Filho, na Vila n¼ 21 de Neves, região metropolitana de Belo Horizonte. Henrique, mesmo nome do pai, também pai do Betinho. Betinho, quase substância do sonho brasileiro, o “sociólogo esquálido”, segundo o gordo Delfim Netto; o primeiro santo ímpio brasileiro, segundo alguns amigos. Aquele que mandou às favas o academicismo estéril com a sua Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida, mobilizando este bruta Brasil.Bom... Henfil. Como discar o número? Dizer não sei que lá? Certo, eu diria que na faculdade a turma da pesada reproduzia, conforme o assunto, algumas tiras da revista O Fradim, no nosso boletim, Bóia Fria. Depois, diria que, na época, revirava a imprensa alternativa em busca das charges, das histórias da Graúna, a pássara magrinha e pretinha, síntese magistral de todas as mulheres, de todos os tempos. Amava a Graúna, ela me humanizava, eu me sentia menos culpada de existir. E ria. Mas também chorava junto. Contaria ainda sobre as cartas que ele escrevia de Nova York pra mãe, dona Maria da Conceição, cartas publicadas pela imprensa daqui. Me ensinaram muito sobre o meu país, me aproximaram mais de minha própria mãe e de minhas filhas.Acabei por não dizer nada disso. Aguardei alguns dias, noites de insônia. E, num repente, liguei. Ele, ele próprio atendeu. Não sei como, nem sei de onde, fui incisiva, direta: meu nome é fulana, peguei seu telefone com beltrano e quero entrevistá-lo com tal objetivo. Alguns segundos de silêncio. Então, ouvi apenas: “Quando?” “Amanhã... (eu mal respirava)... pode ser amanhã às 9?” “Tudo bem”, ele disse. Anotei o endereço, consultei o guia. Era próximo ao HC.
O amanhã seria no dia 26 de outubro de 1983. Manhã limpa, ensolarada. Fui a pé, andando rápido, respirando forte (havia me instalado em Pinheiros, na Capote Valente). Pronto. Havia chegado. O dedo indicador mal tocou a campainha. Ele abriu a porta. Não me lembro do teor do cumprimento. Mas havia muito silêncio. Como aquelas igrejas sozinhas, perto de alguma cidade interiorana. Caminhei pé ante pé, a uma distância mínima dele, talvez um palmo aquém, sentidos a mil. Henfil ia vagaroso pelo corredor; andava com dificuldade (um tigre/quando caminha pelas pedras/vai/como pisando pétalas – o poema saiu de algum lugar dentro de mim, bem ali). Entramos num compartimento claro, sol batendo na janela. “Com licença.” (A voz dele soou como minidecreto lapidar e, num gesto simultâneo, quase imperceptível, retirou do meu rosto os óculos escuros. Até aquele momento, sem me dar conta, eu me escondia.) Imóvel, fixou o olhar no meu, um olhar percussor, operação atômica ligando fios, compondo algum novo sistema de reconhecimento. Claro, não se pode penetrar na natureza do outro sem que a nossa própria se dê a conhecer. Teoria quântica, visão mística, intuitiva... não importa. A entrevista se perdia como significante e entrava em cena uma outra dimensão, um estado inusitado de sincronismo, a certeza de um encontro com jeito de predestinação.Ele se sentou com certo desconforto, inchaço, dores fortes num dos joelhos. Mas o rosto era sereno, desarmado, os olhos já antecipando revelações. Liguei o gravador. E teve início uma estranha viagem. Henfil, o criador, o visionário, fez o retorno e veio trazendo a si mesmo. Desde quando? Me veio um sentimento imperioso de responsabilidade, como uma prova. “Atenção, e toma antes o caminho da direita, no qual está, para te ajudar, o lago da memória.” Com sua brancura quase transparente, poderoso na voz e nas palavras, Henfil me lembrou o mito de Orfeu, que, a bordo da “branca nave” (Argo), partiu em busca de uma consciência mais elevada e ampliada, passando por duras provas. Com seus companheiros (heróis e filhos de heróis, semideuses – que, numa rápida transposição, bem poderiam encarnar a nós próprios, esses argonautas, personagens da arte de Henfil), Orfeu foi à procura do Velocino de Ouro, a essência da alma. Mas esta é uma longa história. Henfil, um alquimista. No seu trabalho, o mágico e o fantástico eram aliados do real, revelações desse sentido plural da alma brasileira, que carnavaliza as próprias penas, que paga a peso de plumas o chumbo que leva. Cada movimento negado a si por conta da hemofilia, ele o forjou e modulou em figuras resplandecentes e ilimitadas, figuras completamente apaixonadas pela vida .Eu não saberia concluir o que escrevo agora. Na despedida, levei o Diário de um Cucaracha como presente. Na dedicatória, o desenho, em caneta Bic, de uma barata imensa e abusada. Voltei pra casa sem saber muito bem o que sentia. Sabia apenas que era uma vez. Uma só. E eu era outra coisa.Ao me aproximar da minha rua, ouvi uma gargalhada endoidecida e fui me aproximando. Era Teresa, uma negra imensa de voz trovejante (cantava o tempo todo) que morava ali, numas caixas de papelão. Teresa estava sentada sobre uma caixa de maçã ao lado de uma banca de revistas. Tinha nas mãos um velho Fradim e, quando cheguei perto, vi. Era a Graúna.
Como você chegou até aqui? É difícil ser Henfil?
O por que fazer, o que fiz... como aconteceu... a palavra que vem é morte, é a palavra-chave; na maioria das pessoas, a consciência da morte vem aos poucos. Tem a morte de alguém, evita-se falar de morte; para crianças, tem os simbolismos: “foi pro céu”, “vovô foi prum país muito distante”, a morte não é uma coisa presente para as crianças em geral, se bem que criança pobre tem essa consciência muito rápido. Pra mim, apesar de não ter nascido na favela, não ter nascido no Nordeste, a consciência da morte era muito precisa porque todo mundo olhava aquela criança que nascia e dizia: “Coitadinha, vai morrer, nossa, que sofrimento vem aí”. Quer dizer, mesmo que não entendesse, eu sentia a barra e a barra era: “Vai morrer por causa da hemofilia”. Naquela época, em 1944, ninguém sabia direito o que era isso nem que o nome era esse; era apenas uma criança que nascia com uma deficiência no sangue, qualquer tipo de machucado o sangue ia saindo até a pessoa morrer. O fruto disso foi que peguei uma consciência de morte, ou seja, de urgência. Viver é uma tarefa urgente porque amanhã é uma coisa que não dá pra pensar, não dá pra fazer planos, hoje é urgente, o amanhã é a morte, ontem, graças a Deus teve ontem! Claro que isso desenvolve um comportamento que nas universidades eles chamam de psicologia: de sensibilidade e de vigilância total. Andar é uma tarefa para profissionais, o mesmo preparo que o Nelson Piquet tem pra pilotar eu tinha que ter pra andar, não podia falhar. A convivência também era uma tarefa pra profissional, equivalente à de qualquer pessoa que participe de uma batalha, na guerra; então, eu tinha que saber rastejar, tinha que parar de respirar, tinha que perder meu cheiro às vezes para não me denunciar e sofrer represália e a morte. Tudo isso fazia parte de uma criança; a sensibilidade vem daí. Se na nossa sociedade a perda dos sentidos – audição, olfato, visão – é uma coisa que “não prejudica” (todo mundo perde isso em função da civilização), se a pessoa continua sua vida normalmente, adquire erudição, vive através dos livros, do cinema, da orientação de um líder, de um pai/mãe, de uma religião, pra mim isso não bastava, eu tinha que ter o controle manual nas minhas mãos e não deixar nunca no piloto automático da orientação externa, porque minha orientação era especial, logo, eu tinha que ter o meu próprio controle. Por isso eu desenvolvi uma visão maior que o normal, uma visão de índio, um olfato de índio, uma audição de índio. Vamos exemplificar melhor: se você ouve um barulho atrás de você, você simplesmente vira o rosto e olha pra constatar o que é. Eu pulo. Me coloco primeiro fora do alcance daquele barulho e depois olho. Um dia eu estava sentado na banheira, lá no Rio, fazendo a barba, quando senti o início de um chiado que prenunciava uma explosão, pulei e atrás de mim explodiu o aquecedor, que não me atingiu. Outra vez, tô dirigindo e tem uma lombada e, sem que eu perceba, jogo o carro no acostamento e atravesso a lombada no acostamento, quando chego em cima do acostamento vem vindo um ônibus na contramão... Os meus sentidos são mais desenvolvidos que o normal. Se você sai comigo de carro vai levar um susto, tomo determinadas atitudes bruscas no volante que pra você são atitudes inexplicáveis, mas logo depois você vê que alguém fez alguma coisa ali na frente que nem eu nem você vimos, mas o corpo sente, que é a coisa de precisar dar o pulo antes. Observo as pessoas, interpreto as pessoas e procuro computar todos os dados rapidíssimo, para prever o comportamento delas, porque, se houver alguma coisa agressiva, eu já tô na defesa há muito tempo, já tô fora do alcance do ataque. Então, essa é a infância, essa é a adolescência e, quando você chega a adulto e que, óbvio, não há tantas ameaças e você tem o conhecimento do teu lado e você vai trabalhar, isso tudo passa pro teu trabalho. Então, quando vou desenhar, vou criar, a minha percepção das pessoas me parece mais disciplinada que a de qualquer outro artista. Quando vou escrever é a mesma coisa, as palavras pra mim não são gratuitas, não consigo usar nenhuma palavra de forma gratuita. Estamos conversando aqui, eu vou escolhendo. É como se eu estivesse lá na frente puxando as palavras. Claro que isso vem dessa deformação de alguém que foi treinado pra andar no meio da selva e de repente anda na cidade e fica feito aquele vovô Fracolino, do Bolinha/Luluzinha, que está sempre cercado pelos índios, quer dizer, eu tô mais ou menos desse jeito. E aí, todo um trabalho, que no caso foi escrever, desenhar, fazer televisão, ele é muito é exato, é muito rápido, é muito sensitivo, é como se eu tivesse me transformado num radar; inclusive acho que não existo como a maioria das pessoas poderia dizer: “Eu sou isso, aquilo etc. e tal” – eu não sei o que é que eu sou. Nesse exato momento, por exemplo, tô tranqüilo porque há exatos dois anos atrás senti as emissões de conturbações até na área política internacional, fico detectando o que os Estados Unidos vão ou não fazer, se houve uma invasão ontem eu já sabia, já estava previsto pelas emissões que eu havia captado. E, se por um acaso o general Newton Cruz se comporta dessa ou daquela maneira no estado de emergência em Brasília, eu já captava porque já sigo as emissões do general Cruz há muitos anos. Se vem uma onda boa, eu também já estou mais ou menos preparado pra ela. Daí se explica por que a maioria das coisas que eu faço está com dez anos na frente, não na frente em termos de vanguarda, não na frente do que aconteceu, mas quase como profecia. Por exemplo, fui pros Estados Unidos entre 1973 e 1975. Senti uma série de coisas lá, todas em relação ao Brasil. Volto, dez anos depois sai Diário de um Cucaracha, um livro que está vendendo paca. Lista dos mais vendidos, primeiro lugar na lista da Veja, mas acho interessantíssimo como as pessoas só agora descobrem algo como o que está escrito no Diário que pra mim já tem dez anos, já passou. Só hoje elas estão tomando conhecimento de como nós somos tratados pelos Estados Unidos, pelas multinacionais, de como somos baratas, de como somos cucarachas, de como eles não nos respeitam. Então, hoje, qualquer brasileiro sabe o que é ser cucaracha, mas isso foi uma vivência minha anos atrás, e o livro fica atualíssimo. Outro dia me escreveu um cara, um adolescente. Tinha uns 15 anos, morava no Rio de Janeiro, logo, era um adulto, e ele lia o Fradinho, adorava, achava muito engraçado mas não entendia nada, e guardava, e hoje, dez anos depois, ele resolve ler e fala: meu Deus do Céu, tudo que falava lá agora eu tô entendendo: o que está acontecendo, inclusive a mudança de atitude das oposições no Brasil, as táticas diferentes mais abertas para uma ação, vamos dizer, dialética ou mais contraditória, mais imprevisível, as oposições hoje no Brasil não têm mais aquela previsibilidade de antigamente e o Fradinho propunha isso dez anos atrás. Foi como quando bolei um filme em 1973 em Nova York, que se chamava Deu no New York Times e que contava o papel da imprensa na criação de fatos que não existiam mas que passavam a existir porque ela publicou; e só hoje, dez anos depois, tenho condições de realizar esse filme porque os produtores estão vendo que o filme é atualíssimo. Essas campanhas que eles vão criando sobre fatos que não existem, mobilizam a opinião pública pra cantar determinada coisa que nem passava pela cabeça do povo cantar, mas aí a imprensa diz que é o que o povo está cantando e o povo passa a cantar. Então acho que qualquer outra explicação sobre por que saí por onde saí e faço o que faço da maneira que faço tem que passar por entender isto: a morte, o sentimento de urgência e a sensibilidade ultradesenvolvida para se proteger da morte.Você se salvou fazendo o que sempre quis.
E as pessoas de que você fala, as pessoas da sua geração, como estão?
Olha, cada vez mais percebo que, na realidade, eu não estava fugindo da escola, não, eu estava fugindo da idade, talvez por isso tenha tomado tantas bombas, pra ficar junto dos que estavam vindo ainda e não tinham feito nenhuma opção. Eu me sentia muito bem com 17 anos, convivendo com a turma de 11, 12 anos, não lembro de me tratarem como mais velho, era igualzinho. E hoje, por exemplo, não consigo conviver com os da minha idade, com os de 39 anos. Ou convivo com os de 70. Meu maior diálogo no momento é com Teotônio Vilela, que está com sessenta e poucos anos, mas poderíamos dar duzentos, porque de cabeça ele tem uns duzentos anos. Tem muitos amigos assim. Agora, só consigo conviver com a turma de 20, 22. Minhas relações acabam sendo fáceis mesmo com a turma entre 16 e 20 anos. Então tem um outro mistério nesse negócio: de novo tô eu na 3» série ginasial, apesar de o meu grupo já estar na universidade! Eles, pra mim, estão mortos, chego lá, nem entro na casa, já sei como é a casa dele, a relação com a mulher, com o filho, com a profissão... ficam vendo televisão como se fosse informação de alta precisão e importância, lêem jornal com cuidado como se estivessem lendo documentos egípcios, decifrando pedras como Champolion, e não percebem o ridículo das suas roupas, dos seus hábitos, das suas casas, dos seus carros, cargos. Eles me constrangem muito e me fazem adoecer. Tenho muitos amigos que eu gosto deles, eles gostam de mim, mas as nossas relações estão cortadas por essa situação. Eles ameaçam a minha saúde, fico muito constrangido. Se a Graúna, quando fica constrangida, tem desarranjo intestinal, eu fico doente também. Não com desarranjo intestinal, mas me dá dores, eu fico com artrite!A Graúna é meio sacana às vezes.
Mas a gente se apaixona por ela... a Graúna tem alguma coisa a ver com o seu lado mulher?
Não. Inclusive, outra coisa em que não embarquei foi esse negócio do lado mulher. Descobri que realmente existem homem e mulher, duas coisas, completamente distintas. Os homens que se fazem mulheres, no caso dos travestis, são bem diferentes delas, são como homens vestidos de mulher, tomam a forma de mulher mas são homens, não adianta, isso faz parte de uma coisa que a natureza nos dá a todos, mas com muita diferença. Por exemplo, esse comportamento infantil é típico do homem... é... a criancice é típica do homem. A mulher nunca foi criança, nunca será criança. Ela vem preparada pra ser algo especial no mundo, que, no caso, é uma coisa irreversível, não há nada que possa evitar isso que é o gerar filhos. Ela é mais preparada numa série de coisas. O filho do homem é a bomba atômica, é o plástico, quer dizer, ele tem que arrumar uma outra forma. Tanto que Deus, que é homem, arrumou barro pra brincar de fazer a Terra, os seres humanos, deu o sopro, aquelas coisas... Nossa Senhora não precisou fazer nada disso. Simplesmente gerou Jesus Cristo, só isso e já fez tudo. O fato de ter um filho torna a mulher um ser adulto desde que nasceu, inclusive ela está pronta pra ter o filho, as meninas desde criança são especiais, você nota. Uma menina é muito mais viva, muito mais rápida, muito mais agressiva, muito mais inteligente do que um menino. Depois, como a disparidade é muita, o que a sociedade faz através das mães, da mulher? Ela paralisa o desenvolvimento da menina. Como? Desviando pra tarefas menores, como cozinhar, lavar, varrer chão, que é uma coisa obrigatória pra qualquer menina, ou desenvolver uma outra sensibilidade, mas fora da convivência social, como balé, piano, violino, quer dizer, paralisam a menina. O menino, por outro lado, é superativado porque em geral ele é muito bobo, é muito devagar, é mais burrinho; ele não é agressivo, é chorão, é superdevagar. Então, o que fazem? Esporte pra que ele fique mais rápido porque, se deixar, o homem fica mais fraco do que a mulher. O homem não tem estrutura física nenhuma; só tem osso, mas é através do esporte que ele fica mais forte, tanto que o intelectual, aquele que não teve uma atividade física, é muito frágil, magrinho, aquela coisa desprotegida, qualquer mulher com um tapa derruba ele. Então, o homem vai desenvolvendo, através do esporte, através do jogo, através do exército, agressividade que não tem. Ele é treinado tanto, que os primeiros dias no exército são um terror pra qualquer homem, mas depois ele é condicionado. À escola, só o homem ia, só o homem tinha conhecimento, lia pra que, quando chegasse aos 30 anos, fosse igual a uma menina de 15. Tanto que, antigamente, homens de 30 se casavam com mulher de 15, porque, se casassem com mulher de 30, eles estavam esmagados. Quando eles chegavam nos 50 anos, a mulher estava chegando nos 30, e eles estavam iguais, o homem era capaz de perceber. É por isso que os casamentos davam mais certo, porque não havia tanta distância de inteligência entre o homem e a mulher. No entanto, ainda assim a mulher efetivamente é mais adulta. O homem endurece o corpo à força dos exercícios físicos, através de um comportamento que a mãe influencia; se vê ele brincando de boneca, de casinha, vai dizer “mariquinha” – a mãe é que fala, o pai nem passa isso pela cabeça, o pai é o meninão que está no bar dando cuspe na parede, bebendo, se exibindo feito qualquer criancinha. Todos os pais são meninos, vão pra campo de futebol, ficam torcendo, gritando e, na hora do gol, carregam os jogadores... isso é o pai. Mas a mãe está ali vigilante, endurece o jogo com o menino, então esse menino vira o que eles chamam de homem, esse homem cumpre as suas funções, mas jamais deixará de ser menino... Ah, sim, a parte mulher, então esse homem se transforma, se embrutece, é morto como ser humano e é capaz inclusive de virar um Fleury, vira um cara esquadrão da morte. Devido a esse treinamento, mataram o menino que ele vai ser até o fim... se deixassem, a gente teria um bando de homens meninos por aí e as mulheres cuidando de tudo. Bem, quando você disse que existe a parte mulher, não é justamente essa coisa a parte menino, essa parte que dizem feminina só existe naqueles meninos que não viraram homem, que não foram transformados, torneados, exercitados para serem homens, homens fortes, homens soldados, homens músculos, homens atletas, homens massa. Só terão essa parte chamada mulher ou chamada menino os homens que escaparam do treinamento. E as mulheres permanecem nas suas funções normais, que é menina que vai ter criança e que, portanto, vai continuar convivendo com os meninos e meninas dentro dessa convivência de sensibilidade, de ter de perceber tudo pra saber se vai chorar ou não vai chorar. O homem que permanece menino, dizem que isso é a parte feminina, não tem nada a ver, apenas eles se salvaram. Agora, os homens estão sendo dispensados gradativamente dessa tarefa de lutar, porque as armas estão substituindo os homens, o soldado não está com nada; hoje, o míssil substitui milhões de soldados, então não precisa preparar o homem pra ser soldado, e com a entrada, por fatores econômicos, da mulher no mercado de trabalho produzindo riquezas etc., essas mulheres começam a deixar de ser infantis, a deixar de ter sensibilidade e, apesar de estarem preparadas biologicamente pra ser mulheres, elas se transformam violentamente, elas se transformam em seres que têm a mesma brutalidade dos chamados homens. Por exemplo, Golda Meir em Israel fez todas as guerras; Indira Ghandi fez todas as guerras e continua com o poder na Índia; guerras, massacres incríveis em cima daquelas tribos. A mulher mais perigosa na política internacional, hoje, é a Margaret Thatcher na Inglaterra, que invadiu as Malvinas, que invade o que for, que tem uma política agressivíssima, está rearmando a Inglaterra internamente, leis de exceção etc. E temos no Brasil uma série de mulheres muito mais perigosas, em todas as áreas, do que os homens; e os homens, como foram dispensados disso, tem muitos homens meninos aí. Então, o homem que está surgindo, o novo homem, é muito mais frágil fisicamente do que o homem de dez anos atrás, e temos aí uma série de mulheres fortes fazendo cooper, musculação; a dança é praticamente um treinamento físico, talvez mais rigoroso que o exército. São mulheres fortíssimas fisicamente e vão virando aquilo que o povo na sua ignorância e sabedoria diz, a mulher está virando homem e é neste sentido: endurecimento, embrutecimento, rigidez, está tendo enfarte, vão ficar carecas, está tendo todos os problemas que o homem tinha quando passava por isso. E diz o povo, na sua sabedoria, que os homens estão virando mulher e, então, sim, aquilo que se chamava mulher, que é menina, a sensibilidade, a brincadeira, você pega qualquer grupo de rapazes, parecem meninos indefesos. Eu vou fazer conferências e descubro que 99 por cento da platéia são mulheres; lançamento de livros, mulheres; quem lê os livros, mulheres; quem está no comando médio das empresas hoje, mulheres; daqui a pouco elas estão no comando total. E veja como esse negócio de lado feminino é uma brincadeira dos meninos cantores que inventaram isso pra serem mais agradáveis à platéia musical, que é constituída de mulheres. São elas que compram discos, então eles ficam paparicando as mulheres com isso “ser menino e menina”, “o meu lado feminino”, e vem o Gil, o Caetano, todas essas pessoas que são fisicamente frágeis são meninos brincalhões, daí as mulheres fortes musculadas ficam adorando e até incentivando isso, porque o homem vai ser desarmado. A mulher percebeu – a mulher especial chamada mãe – que aquele menino que era inofensivo e brincalhão e que ela ajudou a transformar em soldado perigoso, esse homem ameaçava a vida das mulheres, então parece que elas resolveram desativar isso e só vamos ter homens frágeis, pianistas. Os homens ficam estudando estrelas e as mulheres vão trabalhar, vão dominar o esquema financeiro, econômico e vão à guerra, inclusive porque vão estar mais preparadas fisicamente. Quer dizer, há uma questão aí, que falo em termos caricaturais, mas isso que é muito próximo do real e que não há condições de existir no homem o lado feminino.
Henfil, como é que você imagina, hoje, o encontro entre um punk e um hippie da década de 60?
Um encontro entre o shopping e o MacDonald’s. Os dois são produtos fabricados, fabricações de laboratório. Não vejo o menor conteúdo político, social ou econômico nesses dois fenômenos. Eles só existiram porque são inofensivos e portanto interessam, podem ser veiculados pela imprensa, pela televisão... eu já tenho algum tempo de vida pra ter assistido a fenômeno semelhante, como o ator James Dean, de Juventude Transviada – surge um comportamento padrão para que determinados tipos de pessoas possam se enquadrar. Você veja que, de um lado, aqueles que se enquadram como punks usam roupas iguais às de seus idealizadores americanos porque qual é o punk brasileiro, por exemplo? É o trombadinha. Então, o produto estrangeiro veio, os caras adaptam. Agora, nós temos a grande massa que se identifica com um outro modelo que é o do corredor que usa Adidas, esportista, aquelas coisas. Enfim, o que nós temos são fábricas, os criadores se sentam em volta de uma mesa, e a partir do zero criam alguma coisa, fazem o produto e as pessoas vão lá e se enquadram no produto, consomem o produto até que uma nova fábrica tenha no seu departamento de criação uma nova idéia... as pessoas largam aquela e passam a adotar essa. É mais ou menos como se a indústria farmacêutica fizesse o seguinte, e faz: cria o remédio, depois cria a doença. Até fiz um cartum que é assim: um cientista chegando pro dono do laboratório, falando: “O seu remédio foi aprovado, agora o nosso departamento de marketing está estudando a criação da doença”. É isso que a gente vê por aí. Meu filme Deu no New York Times é exatamente sobre isso, como é que você cria alguma coisa que não existe e as pessoas passam a se comportar a partir daquilo. No caso, vou criar uma notícia sobre um fato político, uma nação inteira passa a adotar o que é dito. Você veja como de repente a Sony lança o walkman e todo mundo passa a usar o walkman. Bem, resolveram criar a discothèque. Bolaram todo um plano, depois criaram alguns filmes. Aqui no Brasil juntaram alguns compositores, pegaram As Frenéticas e criaram o Dance, Dance sem Parar... veio a Rita Lee e entrou, veio Gil e entrou, veio Caetano e entrou, todo mundo entrou, prepararam e todo mundo saiu dançando, e pra isso precisava um tipo de sapato que era meio de saltinho alto, meia colorida comprida, um tipo de saia, um tipo de bustiê, um tipo de coisa amarrada na cabeça, óculos multicoloridos; e os homens, a camiseta, com os braços de fora, um cintão, um botinão, uma calça superjusta e colorida, enfim, como o Travolta aparecia no filme. E aí todo mundo saiu consumindo isso. E muito dinheiro foi ganho pelos produtores dessa cultura dita universal. Você pode, inclusive, comprar ações dessa cultura, você vai na bolsa de valores e pede: “Eu quero ações dessa nova cultura que vem aí”. Então eles falam: “A nova cultura é Rhodia”. Você compra ações da Rodhia e aí você vê grandes nomes da música, da literatura e do cinema que passam a ser empregados dessa Sociedade Anônima Cultural.Com tudo isso, fala-se em final dos tempos, final de milênio... como é que você faria um cartum sobre isso? Eu não aceito esse negócio de milênio. De repente, nós aqui, a partir do nascimento de Cristo, comemorando o ano 2000 depois de Cristo. Ora, ora, ora, os orientais estão comemorando o ano 20000, os judeus comemoram não sei se o ano 4000, por aí. Os índios comemoram o quê? Um milhão? As pedras comemoram o quê? O ano 1 trilhão? As águas, que ano estão comemorando? Ora, ora, ora, diria o Teotônio Vilela quando fica irritado, não há milênio coisa nenhuma! Como é que há milênio se neste exato momento nós temos um satélite, maravilha da tecnologia, girando em torno da Terra, que possibilita as comunicações por telefone a distância, o DDI, o DDD; pois bem, vamos pegar um telefone desses, vamos levar esse telefone, como já está sendo levado, como a maravilha da tecnologia, e vamos ao sertão do Piauí e colocamos na boca do sertanejo pra que ele dê testemunho dessa maravilha, dessa tecnologia. O que é que ele vai falar? Ele vai falar: “Socorro!” É pra isso que serve a tecnologia, pra aproximar do primarismo que a gente está vivendo. Então não existe ano 2000, não adianta computador, se ele vai computar quantas pessoas, quantas crianças morrem em mil de fome, de sede, quer dizer, nós não temos água garantida pra todo mundo, apesar de ter água. Então, isso de milênio é mais uma promoção do departamento de marketing da Sociedade Anônima Cultural, é uma farsa. Não entro nessa sociedade anônima, não compro ações do shopping center, não pertenço ao shopping center; as pessoas entram, eu saio. Tem esse negócio chamado década, década de 60, década de 70... que década o cacete! Não existe isso. E eu não tenho 39 anos. Eu tenho milhões de anos, já tenho conhecimento mínimo suficiente hoje pra saber que sou fruto genético de uma ameba. Não sou filho de dona Maria da Conceição. Sou filho de uma ameba há trilhões de anos. Não tenho 39 anos, tenho trilhões de anos.
E tem planos? Quais são seus planos? Planos?
Tenho. Esticar a minha vida o máximo possível – e é possível – desde que eu viva intensamente os meus segundos, então tenho urgência. Meu plano é: se vou morrer, não tenho tempo a perder. E, como sou herdeiro de uma simpática ameba há trilhões de anos, tenho que dar seguimento a isso rapidinho porque não quero ser como a gente vê no Fantástico, aqueles milhões de células, milhões de espermatozóides querendo fecundar alguma coisa; e uns vão parando no meio do caminho, se distraem, não prestam atenção, se perdem e aí não fecundam! Eu quero fecundar alguma coisa, então tô com muita pressa e tô prestando muita atenção porque a minha morte vai se dar no dia em que eu fecundar alguma coisa.
Você tem medo da morte?
Não. Eu tenho medo é de avião.
Obras do Henfil, além das histórias em quadrinhos
Teatro - A Revista do Henfil (em co-autoria com Oswaldo Mendes)
Cinema - Tanga - Deu no New York TimesTelevisão - TV Homem, do programa TV Mulher, na Rede Globo
Livros - Hiroshima, meu Humor (1976) Diário de um Cucaracha (1983) Dez em Humor (coletiva, em 1984) Diretas Já (1984) Henfil na China (1984) Fradim de Libertação (1984) Como se Faz Humor Político (1984) Cartas da Mãe (1986)
segunda-feira, 11 de novembro de 2019
Maria José Cardoso nasceu em Santa Catarina mas foi Miss Brasil 1956 pelo RGS
Quem a viu pessoalmente diz que era de uma beleza invulgar e estonteante (morena com olhos azuis esverdeados) no gênero Ava Gardner - se bem que um tanto tímida. O certo é que a primeira Miss Brasil gaúcha escolhida por um júri nasceu em São Francisco do Sul, no litoral catarinense e se mudou ainda pequena para o Rio Grande do Sul, Estado que representou no concurso Miss Brasil 1956, realizado no hotel Quitandinha, em Petrópolis, Rio de Janeiro, a 16 de junho.
Maria José Cardoso tinha apenas 21 anos de idade e estudava no Instituto de Belas Artes, em Porto Alegre, mas, para os mais íntimos, era tão somente a "Zezé da rua Vicente da Fontoura", em Petrópolis, onde pegava diariamente o bonde que a levava ao centro. Foi,aliás, como representante do Petrópole Tenis Clube que se elegeu Miss Porto Alegre;
Eleita Miss Brasil, depois de ter vencido o certame estadual, teve um retorno apoteótico a Porto Alegre, sendo recebida no aeroporto pelo prefeito Leonel Brizola e, ao término de um desfile em carro aberto que teve multidões a acompanhá-lo (inclusive na Rua da Praia), acenou para os gaúchos na sacada do Palácio Piratini - o governador Ildo Meneghetti estava a seu lado (por coincidência, a esposa de Meneghetti aniversariava naquele dia).
Maria José Cardoso, a Zezé, não venceu o concurso Miss Universo daquele ano, mas chegou perto. Alguns atribuem o fato à sua timidez. As reproduções acima são da Revista do Globo da segunda quinzena de julho de 1956.
sábado, 9 de novembro de 2019
O curioso nome de um município gaúcho: Não-Me-Toque
Entre os nomes curiosos de municípios brasileiros está o de Não-Me-Toque, no Rio Grande do Sul. Berço da colonização holandesa no Estado (as primeiras famílias chegaram em 1949, fugindo da devastação causada pela Grande Guerra na Europa), o local tem, segundo alguns, tal denominação por causa de uma planta que leva este nome. Como era motivo de gracejos e trocadilhos, passou a denominar-se Campo Real, em homenagem à grande produção de trigo, o "cereal rei". Em 1976, no entanto, os moradores - através de um plebiscito - optaram por voltar à designação original: Não-Me-Toque. A mudança gerou acirradas controvérsias e brigas entre os habitantes e inspirou até uma novela da Globo. Em 1978 a Justiça confirmou a legalidade da escolha, como se vê nesta reprodução do jornal Correio do Povo.
sexta-feira, 8 de novembro de 2019
A Capital gaúcha das praias, naquele anos de 1959
A Capital das Praias, como se autodenomina Tramandaí, estava longe de ser o que é hoje naquele distante janeiro de 1959 - 60 anos atrás. Mesmo assim, o balneário - tradicional havia décadas - já era um dos preferidos dos veranistas gaúchos, especialmente dos porto-alegrenses nos finais de semana, como se vê nesta foto que ilustra uma matéria a respeito publicada pela Revista do Globo em janeiro daquele último ano da década de 50. Carros, que hoje seriam cobiçados pelos colecionadores e aficcionados, estacionavam à beira das calçadas, aparentemente alheios ao perigo moderno dos furtos de veículos. Os homens e mulheres passeavam em pleno verão com calças compridas e saias, e os mais jovens preferiam, é claro, as lambretas.
terça-feira, 5 de novembro de 2019
Mário Quintana aos 36 anos, na Livraria do Globo
Mário Quintana foi talvez o maior poeta gaúcho. Faleceu em 1994. Nascido no Alegrete, trabalhou muito tempo na Editora Globo, onde foi tradutor de importantes escritores mundiais - incluindo Marcel Proust. Nesta foto, de 1940, da Revista do Globo, ele aparece em seu ambiente de trabalho, na Livraria do Globo - que não mais existe - um ponto de encontro dos intelectuais gaúchos da primeira década do século 20. Nesta época ele tinha apenas 36 anos.
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