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sábado, 22 de fevereiro de 2025

Talidomida, o calmante monstruoso

 

As pessoas mais velhas e bem informadas ainda lembram bem deste nome: Talidomida. Prescrito como calmante e sonífero no final dos anos cinquenta e início dos sessenta, o medicamento (na verdade Talidomida é o seu nome químico e não o de vendas) transformou-se em um sinistro sinônimo da ganância monstruosa da indústria farmacêutica. 
Lançada sem a devida comprovação de seus efeitos colaterais, testada apenas em ratos, produzida em dezenas de países com nomes comerciais diferentes (Contergan, Distaval, Kevadon, Softnon, Talimol etc), a substância foi sintetizada pelo laboratório Chemie Grünenthal, de Nordrhein-Westfalen, na então Alemanha Ocidental e, dentro em breve, logo após o seu lançamento comercial, em 1956, (como anti-gripal e com o nome de Grippex), transformou-se em uma mina de ouro para a indústria, a qual investiu pesadamente na sua divulgação. Na verdade, a partir de tal substância, fabricava-se inúmeras marcas comerciais que, somente em um ano, na Alemanha, venderam a assombrosa quantidade de 14 toneladas. Mais de 20 outros laboratórios, em diferentes países de todo o mundo, foram licenciados para a sua produção.
No Brasil, a Talidomida chegou em março de 1958, nas marcas Ectiluram, Ondosil, Sedalis, Sedim, Verdil e Slip, todas vendidas sem a exigência da receita médica. Era, então, considerado o melhor soporífero jamais inventado, passando também a ser utilizado contra a gripe, a nevralgia, a asma, a tosse e, sobretudo, como antiemético para as mulheres grávidas.
Foi justamente aí que ele fez história - uma tétrica história: receitado para muitas grávidas em início de gestação, ingerido em pílulas brancas, era um sedativo barato que provocava um sono rápido, profundo e natural, sem a característica "ressaca" da manhã seguinte. De igual forma, podia ser ingerido em doses maciças que não causaria a morte do paciente, nem mesmo se este quisesse praticar o suicídio. Ideal, e, como logo se viu, fatal, ou pior que isso, para os fetos em início de formação. Usado nos primeiros 40 dias da gestação, atuava como teratogênico - ou seja, produzia monstros, se é que, infelizmente, assim se pode falar de suas vítimas, calculadas em cerca de 10 mil em todo o mundo. As crianças nasciam muitas vezes sem dois, três ou até quatro membros, dentre tantos outros efeitos observados.
A má-formação dos membros tinha um nome científico: focomelia (do grego "phoke" - foca- e "melos" - membros), ou "membros de foca". Os braços dos recém-nascidos surgiam como tocos abaixo dos ombros, semelhantes às nadadeiras das focas. Também se observou deformação dos olhos, do esôfago e do tubo digestivo. De cada duas crianças nascidas assim, apenas uma sobrevivia. Sem entender o porquê daquilo, com problemas de consciência, algumas mães enlouqueceram e outras chegaram a praticar o suicídio. 
Em 1961, os casos de "focomelia" já eram tantos que se falava em uma "epidemia".
De início foi extremamente difícil descobrir-se a origem de tal fenômeno, o elo comum. Pensou-se nos alimentos, na água, até em poeira atômica. Porém, graças a duas pessoas precisou-se exatamente a Talidomida como o fator causador. Uma delas, o advogado Karl Schulte-Hillen, de 32 anos, não havia aceito a explicação "genética" como a causadora da focomelia do seu filho recém-nascido. Homem saudável e esclarecido, ele descobriu que, coincidentemente, um casal de amigos seus tivera um filho em condições idênticas. Intrigado e inconformado, Karl passou a fazer investigações por conta própria, conversando com as mães que haviam dado a luz a tais "monstros". Ao tentar chamar a atenção da comunidade médica para o que estava se passando, encontrou uma revoltante indiferença e ignorância. Foi então que surgiu em seu caminho o médico Widukind Lenz, um pediatra especializado em genética que aliou-se a Karl, encampando a causa. Lenz, por fim, achou o nexo causal.
No dia 16 de novembro de 1961, Lenz comunicou oficialmente à indústria fabricante dos efeitos nocivos dos medicamentes a base de Talidomida - Contergan, no caso da Alemanha Ocidental. Ele, pessoalmente, já conhecia 13 casos. A Chemie Grünenthal, porém, não retirou o remédio do mercado - o que de fato só ocorreu quando a história virou manchete de jornal. O Contergan era o carro-chefe das suas vendas, uma verdadeira "galinha dos ovos de ouro", rendendo milhões e milhões de marcos.
Sooou então o alarma em todo o mundo. Nesse tempo, às suas próprias custas, Schulte-Hillen contratou oito fisioterapeutas que, juntamente com ele, passaram a percorrer a Alemanha Ocidental, à procura de vítimas da Talidomida. Entre agosto de 1964 e dezembro de 1965, visitaram 1.600 das 3.000 vítimas vivas da substância. Com seu endereço publicado nos jornais, choveram cartas, narrando novos casos.
A maioria das vítimas da Talidomida estava na Alemanha e na Inglaterra. Nos Estados Unidos, graças a uma mulher, o medicamento (lá chamado de Kevadon), não chegou a causar tantos danos e sofrimentos (não mais do que 20 vítimas). A ser fabricado pela Merrel Co., uma empresa de Cincinati, Ohio (e que ainda hoje é uma das grandes do mercado farmacêutico), não chegou a ser liberado pela Secretaria de Alimentos e Remédios (FDA, sigla em inglês). Apesar das terríveis pressões da indústria, a médica responsável pela aprovação, Dra. Frances Oldham Kelsey, recusou-se a dar o parecer favorável, alegando que as provas de garantias de não havier efeitos colaterais deletérios eram insuficientes. Em agosto de 1961, quando o escândalo veio a público, ela recebeu do presidente John Kennedy a medalha por Destacados Serviços Civis, por reter a aprovação da Talidomida - medalha esta que é uma das mais altas condecorações daquele país.
NO BRASIL - A Talidomida chegou ao Brasil em março de 1958, com os nomes de Ectiluram, Ondosil, Sedalis, Sedim, Verdil, Slip. Em março de 1962, o Serviço Nacional de Fiscalização de Medicina e Farmácia proibiu o uso da Talidomida em todo o país, mandou apreender os estoques e cassar as licenças de fabricação. A medida, no entanto, não surtiu lá grandes efeitos pois o medicamento continuou ainda a ser usado durante anos devido à falta de informação da população, do descontrole na distribuição e, sobretudo, graças à omissão do governo e ao poder econômico dos laboratórios. Em 27 de novembro de 1973 foi criada, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, a Associação Brasileira dos Pais e Amigos das Crianças Vítimas da Talidomida, entidade declarada de utilidade pública.
Nos últimos anos o interesse pela Talidomida trouxe novamente o debate à tona. Conforme alguns testes - ainda não plenamente comprovados - ela teria eficácia na luta contra a lepra, contra a tuberculose e até para aumentar a resistência de pacientes aidéticos. A questão, entretanto, ainda está em aberto.

sexta-feira, 7 de junho de 2024

As baixarias da campanha eleitoral de 1950

 

As eleições de outubro de 1950 foram das mais disputadas e acirradas de toda a história brasileira - por dois motivos: eram as primeiras depois da Revolução de 30 e do Estado Novo. Com o país redemocratizado, e Getúlio Vargas - oficialmente senador da República - recolhido em sua fazenda do Itú, quase na fronteira com a Argentina, as forças udenistas e golpistas, lideradas, entre outros, por Carlos Lacerda, não mediam esforços para impedir que o ex-ditador e precursor das leis sociais voltasse ao poder, agora pelo voto popular. Mas Getúlio venceu com larga margem (a contagem, nas cédulas de papel, demorou mais de um mês até a sua finalização), contando com o fundamental apoio do líder político paulista Adhemar de Barros, que garantiu-lhe muitos votos no mais importante Estado da Federação. A campanha movida contra Getúlio incluiu peças como esta acima, publicada no Correio do Povo, de Porto Alegre, e em muitos outros jornais nacionais, relacionando os dois com a volta dos jogos de azar no Brasil - que haviam sido proibidos, poucos anos antes, pelo então presidente, General Eurico Gaspar Dutra.  

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Em 1936 Brasil já era o quarto maior exportador de carnes

 

Ao contrário do que se imagina, o Brasil, já na primeira metade do século passado, colocava-se entre os quatro maiores exportadores mundiais de carne - hoje ocupa a primeira ou segunda posição. Nesta matéria do Correio do Povo de janeiro de 1936, ficamos sabendo que, já naquele tempo, vendíamos mais carne do que a tradicionalíssima Argentina, por exemplo, prevendo-se ainda, com acerto, que tal tendência evoluiria ainda mais com o avançar do tempo. Note-se que o rebanho gaúcho era então o melhor e provavelmente o maior do Brasil. 

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Guaíba em campo

 

Em 1972 a rádio Guaíba, de Porto Alegre, era uma das mais ouvidas e respeitadas emissoras brasileiras (100 quilovates). Integrante da Companhia Jornalística caldas Júnior, presidida então por Breno Caldas, seu proprietário maior, a Caldas Júnior liderava, com folga, o setor de imprensa escrita e falada no Rio Grande do Sul, através da Guaíba, fundada 15 anos antes, e do Correio do Povo, o mais importante jornal da região Sul do Brasil. As transmissões esportivas contavam com um time de bons e tarimbados jornalistas e radialistas, muitos deles já falecidos, os quais acompanhavam, fosse onde fosse, os jogos da dupla Gre-Nal. Nesta reprodução das páginas do Correio vemos o anúncio de dois jogos pelo campeonato brasileiro de então, um em Natal, no Rio Grande do Norte, e o outro no Rio de Janeiro. As Jornadas Esportivas Ipiranga contavam com o patrocínio da empresa Ipiranga, uma refinaria de petróleo nascida no Rio Grande do Sul e com inúmeros postos de revenda em todo o País.

sexta-feira, 12 de abril de 2024

domingo, 17 de março de 2024

Os passarinhos de hoje e os de antigamente

 No passado todo mundo, ou quase todo mundo, matava passarinhos. Especialmente no interior, não se podia ver nenhum pássaro dando sopa no galho de uma árvore, em um poste, em um telhado de casa, que o garoto, com seu estilingue ou quem sabe espingardinha de pressão não mirasse no bicho emplumado, para abatê-lo, assim como os brancos norte-americanos do Velho Oeste faziam com os bisões de dentro dos trens. 

Matava-se mais por uma questão de honra e machismo, pode-se dizer. Deixar um passarinho lá em cima era quase uma afronta. Eu mesmo matei muitos, não tanto como meu irmão, mas matei. Sentia pena, muitas vezes ao pegar o bicho quente, com o coração ainda batendo, nos seus estertores finais, sem ter álibi para o meu crime. No entanto era quase uma regra de conduta entre os meninos que passarinho era um alvo e que matá-los era quase nosso dever, parte da afirmação masculina.
Hoje tudo mudou - a consciência ecológica, a evolução social e civilizatória as próprias leis que punem coisas desse tipo, fizeram com que matar passarinho se tornasse uma espécie de escândalo, de crime contra os seres vivos, de atentado à natureza. Pior, pode dar até detenção e, mais pior ainda, virar notícia na imprensa: Fulano foi pego matando um passarinho.
Moro em um condomínio, aqui no Jardim Botânico, o Felizardo Furtado, que tem muitas árvores e vegetação, em um bairro onde há muitos pássaros, de todo o tipo e cor - coisa que não sei distinguir, assim como não sei distinguir espécies de árvores. Pois notei, de uns anos para cá, uma radical e alentadora mudança nos hábitos desses pequenos animais canoros causada pelo sossego e harmonia que hoje convivem face à raça humana: eles não têm mais medo dos homens e nem dos meninos, sentem-se tranquilos, como sempre deveriam estar. 
Antigamente os pássaros eram temerosos e arredios ao homem - quando viam algum, tratavam de voar rumo a um local mais distante e seguro. Sentindo-se alvos da maldade humana, mantinham-se acuados e com aversão aos humanos. Voavam sempre, preservando a própria vida.
Agora tudo mudou. Eles caminham nas calçadas e muros, nos terrenos baldios, nos postes e nos parapeitos com absoluta paz e tranquilidade. Passam à nossa frente, no chão, e nem se dão ao trabalho de atravessar de lado. Esses dias mesmo, no gramado aqui em frente, tive de desviar de um sabiá-laranjeira que seguia pela calçada, atrás de algum alimento. Ele não deu a mínima pela minha presença e apenas arredou um pouco de lado. Creio que, se quisesse pegá-lo, eu o faria sem maiores problemas. 
Aí pensei na minha infância, lá no mato, e como eu era cruel e idiota matando passarinhos. Na verdade deve ser por isso que tenho tantas culpas a expiar - fui um inimigo da Natureza e um serial-killer de pássaros. Mas pelo menos tenho algo a meu favor: não os prendia nas gaiolas, como se fosse o executor de uma prisão perpétua, assim como fazem esses caras que em todo o mundo aprisionam os bichos apenas para vê-los cantar. Gente boa, a maioria deles, pacata e cumpridora dos seus deveres. Mas insensíveis e cruéis como eu também fui - "passarinho na gaiola feito gente na prisão". 
Talvez um dia a evolução da sociedade também proíba essa gente de tal prática criminosa. Pelo menos tenho esperança. Liberdade aos pássaros.
A propósito: ao contrário de algum tempo atrás, notei que os passarinhos - que faziam uma algazarra ao amanhecer - silenciaram subitamente. Onde estão eles, não sei. Alguma coisa está acontecendo, resta saber o que é. (Vitor Minas)

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Ele ajudou a construir o condomínio Felizardo Furtado, na metade dos anos setenta

PUBLICADO EM OUTUBRO DE 2008. SEU MANOEL, NA FOTO, JÁ É FALECIDO.

Seu Manoel Barros da Silva (de boné) tem 81 anos, nasceu em Portugal e mora no Jardim Botânico desde os 13 anos de idade. Entre outras coisas, é testemunha ocular da construção do Conjunto Residencial Felizardo Furtado. Mais que testemunha: trabalhou na obra, do seu início, no verão de 1974, até o término desta, em 1976. “Comecei e terminei. Foi uma obra rápida. Tinha mais de 2.500 pessoas trabalhando, em certa época”, conta ele. “A construtora foi buscar gente no interior e veio até uma turma de Santa Catarina”.
Funcionário do almoxarifado, durante 20 anos empregado da empreiteira Gus Livonius (que não mais existe, tal como era), ele recorda do ritmo intenso da construção e da seriedade como ela foi feita.“A obra não parou nunca, eram dez horas da noite e tava chegando concreto. E o fiscal do Inocoop estava sempre junto, conferia pessoalmente cada detalhe e às vezes mandava desfazer e refazer porque não estava de acordo. Também havia muito cuidado com a segurança, tanto que não me lembro de nenhum acidente sério”, relata.
Outra coisa: os peões tinham alojamento no local e refeições no local, com café da manhã, almoço e janta. Seguindo um cronograma rígido, cada edifício era concluído inteiramente, partindo-se então para a execução de outro dos oito prédios. Um posto de vendas, no lado da rua Ferreira Viana, recebia a visitas dos interessados, que adquiriam os apartamentos confiando nas especificações da própria planta arquitetônica.”Quando terminou, tava quase tudo vendido”, assinala seu Manoel.
AMAZONAS – Residindo ainda hoje na Barão do Amazonas, seu Manoel pegou o Jardim Botânico em um tempo quase rural, a época da Vila Russa. “Meu pai tinha uma chácara na Salvador França. Lembro do Chico Tatão, os filhos dele tinham vacas de leite, no lado de cá da Salvador, que era de chão batido, quase não tinha casas, eu caçava passarinhos ali. A Ipiranga não existia, era só um caminho, e o arroio Dilúvio era um riacho desgovernado.” As águas do arroio Dilúvio da década de 40 e 50 eram então límpidas, garante ele, e nelas se pegava cascudos, que alguns meninos vendiam nas ruas.“Era uma água branquinha, limpinha”, recorda seu Manoel.

Tramandaí no distante ano de 1959

 

A Capital das Praias, como se autodenomina Tramandaí, estava longe de ser o que é hoje naquele distante janeiro de 1959 . Mesmo assim, o balneário - tradicional havia décadas - já era um dos preferidos dos veranistas gaúchos, especialmente dos porto-alegrenses nos finais de semana, como se vê nesta foto que ilustra uma matéria a respeito publicada pela Revista do Globo em janeiro daquele último ano da década de 50. Carros, que hoje seriam cobiçados pelos colecionadores e aficcionados, estacionavam à beira das calçadas, aparentemente alheios ao perigo moderno dos furtos de veículos. Os homens e mulheres passeavam em pleno verão com calças compridas e saias, e os mais jovens preferiam, é claro, as lambretas.

Velhos tempos, outros tempos, mais simples, comunitários e rurais

 

Este é um dos prédios mais antigos do Jardim Botânico, no tempo da antiga Vila São Luís.

* Em 2008 realizei uma série de entrevistas com antigos moradores do bairro, as quais, depois, no ano seguinte, publiquei em forma de jornal comemorando os 50 anos da instalação oficial do Jardim Botânico. Esses dias, remexendo antigas caixas, achei o bloco de anotações das entrevistas que fiz e resolvi aproveitá-las nesta matéria saudosista e meio histórica. Alguns das fontes aqui citadas já faleceram, mas outras estão vivas. A foto do sr. Ruben eu retirei da sua página no Facebook. Ele não mora mais no JB. (V. Minas)

Os tempos eram outros – bem mais primitivos e pacatos, com pouco conforto e raras facilidades (pelos padrões atuais), porém muito mais solidariedade entre as pessoas. Assim alguns dos moradores mais antigos do Jardim Botânico relembram um passado em que o próprio nome do bairro era outro – chamava-se Vila São Luís. Os seus poucos habitantes conviviam então com uma paisagem que, em muitos aspectos, lembrava uma cidadezinha do interior, se é que as cidadezinhas do interior ainda são as mesmas.
Anos quarenta, cinquenta, sessenta. Espremido entre o Partenon, do outro lado do Riacho, e Petrópolis, mais acima, a Vila São Luís era, realmente, uma simples vila, a “Várzea de Petrópolis”, local de topografia baixa e muitas casinhas de madeira nas quais moravam famílias de modestos funcionários públicos, além de chacareiros, verdureiros, plantadores de flores e de agrião (o solo úmido facilitava o cultivo).
IPIRANGA CHEGOU – O crescimento do Jardim Botânico ocorreu de forma paralela à construção da avenida Ipiranga, a grande obra federal de canalização do tortuoso Riacho, ou Dilúvio (era a porta de entrada das grandes enchentes na Capital), depois rebatizado para “Arroio Ipiranga”, empreendimento que durou décadas. Mais antigamente ainda, no início do século vinte, o local onde está o JB era chamado de “Campo do Simião”, em referência ao primeiro proprietário das terras. Em 1914 – início da Primeira Guerra Mundial – chegaram da Europa algumas famílias russas, fazendo com que a localidade ficasse conhecida como “Vila Russa”. Eles se instalaram na parte mais alta, mais ou menos onde hoje é o Círculo Militar. Depois da Segunda Grande Guerra e do início da “guerra fria”, o termo “russo” passou a ter uma conotação subversiva, digamos assim, e foi deixado de lado. Dos russos originais que aqui chegaram não restou mais ninguém – ao menos que se saiba.
BONDES E GAIOLAS - Antigo morador do Jardim Botânico (morava na rua Surupá), Ruben Carlos Simionovschi, lembra como eram aqueles tempos: “Em 1950, quando eu tinha oito anos, meu pai comprou uma casa na rua Guilherme Alves. Naquela época as ruas do bairro eram sem calçamento e para nos locomovermos tínhamos a opção de ir até a Protásio Alves, na esquina com a Barão do Amazonas, ou seguir até o final da linha do bonde que ficava na esquina da Carazinho. Os bondes eram do tipo “gaiola”. Havia então meia dúzia de chalés na Felizardo e umas oito ou dez casas na Salvador França. Outra opção de transporte era pegar um micro-ônibus na Barão, esquina com a Felizardo, mas a opção preferida era mesmo o bonde para o centro, a passagem era mais barata”, rememora Ruben. “Depois de algum tempo a linha de ônibus foi estendida até a esquina da rua Serafim Terra com a Felizardo”.
Ruben lembra dos bondes e das plantações de agrião e de flores que existiam no bairro.

OTÁVIO DE SOUZA – Em abril de 1952 iniciaram as aulas na Escola Estadual Professor Otávio de Souza, na rua Felizardo, com apenas sete salas de aula. O colégio foi oficialmente criado em 1942, apenas para educação primária – e somente em 1947 passou a se chamar Professor Otávio de Souza, hoje na rua Afonso Rodrigues.
Seu Pedro Ceratti ainda não morava no JB quando isso aconteceu. Natural de Júlio de Castilhos, ele chegou ao Botânico bem jovenzinho – tinha 20 anos.
“O bairro era cheio de plantações de agrião, um tempo bom. A gente fazia compras no Armazém do Caboclo, na Barão, e na Dona Versa, na Valparaíso. Eu ia nas festas do Clube Americano e assistia aos jogos do Universal e do Leal Santos, e também ia ver os filmes no Miramar, na avenida Aparício Borges. Lembro que a Ipiranga vinha só até a Salvador França, não subia até Petrópolis, ali tudo era mato. Naquele tempo a gente tomava banho e pescava no arroio Dilúvio e jogava bola onde hoje é o Bourbon. Era uma vida bem diferente”.

Seu Pedro (já falecido) chegou aqui em 1959: "Era uma vida muito diferente."

PAULÃO E SEU ARMAZÉM – Paulo Soares dos Santos (faria 81 anos em 2024), uma das figuras populares mais conhecidas do JB, foi um empreendedor local de sucesso, com seu bar e armazém na rua Valparaíso, onde hoje há uma concessionária de motos. “Cheguei aqui com cinco anos de idade, vindo do interior de Viamão, meus pais vieram de carreta e fomos morar na Barão, depois nos mudamos para a Travessa Municipal, na antiga Vila Russa”, historia ele, citando também o Armazém do Caboclo, o Armazém Parafuso, na Salvador França: “O dono tinha o apelido de Parafuso, vendia querosene, alface, queijo, tudo”. Assim como tantos, recorda da Dona Versa e do Estrela Dalva, na rua Inocência.
“Todos se conheciam e frequentavam os mesmos lugares. Nos anos cinquenta as famílias daqui, que eu lembro agora, eram os Correa, os Lucena, os Santos, os Pieretti, os Maraschin. Existiam bailes de carnaval, canchas de bocha, pescarias no Dilúvio, a gurizada caçava no mato onde hoje é a Fundação Zoobotânica, subindo para a Tarso Dutra, que ainda não existia. O médico do bairro era o Doutor Francisco, atendia em casa, morava na Bento Gonçalves. O pessoal daqui ia para a Bento fazer as compras maiores, lá tinha muitas ferragens, além do restaurante Tico-Tico e do Poletto”.
Paulão não esquece da ponte de madeira que havia entre a Salvador França e a Ipiranga – “a gente pescava embaixo, e do outro lado havia uma vila” – e da fábrica de carroças do seu Lúcio, na rua Guilherme Alves, defronte onde está a igreja católica: “Eles faziam carroças e tinha uma ferraria do lado, para ferrar os cavalos. Era um movimento direto com muitas carroças e cavalos.”
Nesse tempo pacato e sem esgoto cloacal, o bairro nem sempre cheirava muito bem, brinca o comerciante, reportando-se aos famosos recipientes em forma de cubos colocados debaixo das privadas e que acumulavam as fezes das famílias. Depois de alguns dias, eram lacrados e recolhidos pelos “cubeiros”, ou “cabungueiros”, assim como hoje se faz com os banheiros químicos: “O cheiro era horrível”. Eles vinham em caminhões e “às vezes demoravam”.
Joel: um carnaval muito animado, com blocos de foliões e fantasias improvisadas.

AMERICANO – Rua Serafim Terra, 49. Este era o endereço do Clube Recreativo Americano, onde aconteciam os bailes e as festas do bairro. Joel Duarte, 69 anos (idade em 2008. Joel, infelizmente, já faleceu), contador aposentado e morador da rua Itaboraí, participou de muitas delas e pode enumerar de memória os outros pequenos clubes do JB, estes dedicados ao futebol – o Amazonas, o Universal, o Leal Santos, o Cometa, o Ararigbóia e, mais tarde, o São Pedro.
Ele também recorda das pequenas fábricas que existiam no bairro. “Tinha uma fábrica de carroças, uma de gaiolas, uma de rapadura e outra de doces. Nos anos cinquenta e sessenta as missas eram realizada no hall de entrada do colégio Otávio de Souza e depois na entrada do Jardim Botânico, onde fiz a minha primeira comunhão com o frei capuchinho da igreja de Santo Antônio. Recordo que na Serafim Terra existia o clube São Luís, onde a gente jogava ping-pong, bocha, cartas, futebol e se fazia churrascos e também bailes. A fábrica de rapaduras era na Guilherme Alves, era um produto de ótima qualidade. Já a fábrica de sabão era na Roque Gonzales. E no Botânico, na hoje Fundação, havia também grandes estufas de cactos, praticamente uma floresta que ia  ao longo de toda a sua extensão, naquele tempo, entre a Ipiranga e a Cristiano Fischer e Tibiriçá com Salvador França e outras ruas, terras que hoje pertencem ao hospital da PUC, por casas e até pelo Oitavo Distrito de Meteorologia.”
O aposentado também lembra os antigos carnavais do bairro: “Eram muito animados, inclusive tendo eleito uma vez a Rainha do Carnaval de Porto Alegre. Aconteciam na Surupá, na Felizardo e na Barão, o povo se divertia de qualquer  jeito, inventavam fantasias ao gosto de cada um, havia blocos formados.”

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Os 40 anos do nosso Condomínio: inaugurado pelo Presidente do Brasil e pelo Governador do Estado



O Condomínio, quando da época da sua construção: antes o local era uma chácara de agrião.


Estava lá, na contracapa da edição de sábado, 30 de outubro de 1976 do jornal Correio do Povo, sob o título “Inaugurados Hospital da PUC e Bloco de 944 Apartamentos”:
“O Presidente da República presidiu, na manhã de ontem, os atos de inauguração do Núcleo Habitacional Felizardo Furtado, com 944 apartamentos, e o Hospital Universitário da PUC. Acompanhado pelo governador Sinval Guazzelli, pelo chefe do gabinete militar da Presidência da República, general Hugo de Abreu, e pelos ministros Rangel dos Reis e Arnaldo da Costa Prietto, o presidente chegou ao bairro Jardim Botânico, onde foi construído o núcleo habitacional, às 9 horas e 30 minutos, sendo aguardado pelo prefeito Guilherme Socias Villella, pelo diretor-superintendente do INOCOOP, Renato Eickstaed, e demais autoridades. Estudantes de todo o bairro e bandas marciais saudaram o chefe da Nação em sua chegada ao Núcleo Habitacional Felizardo Furtado. No local, o presidente Ernesto Geisel solicitou amplas informações sobre a obra que custou 130 milhões de cruzeiros, interrogando principalmente o diretor-superintendente da INOCOOP. A seguir entregou a chave de um apartamento a Eduardo Araújo, o primeiro morador do Núcleo”.
PROGRAMAÇÃO ELEITORAL - Na verdade o presidente Geisel havia chegado ao Estado na quinta-feira, seguindo imediatamente a Santo Ângelo, onde abriu oficialmente a colheita do trigo. Em seguida foi a Caxias do Sul e lá inaugurou o Centro de Tecnologia e Pesquisa da Universidade de Caxias do Sul, UCS.Era, em essência, uma agenda política, pois estava-se às vésperas das eleições municipais (as únicas permitidas para cargos executivos) e Geisel queria dar “um empurrãozinho” no seu partido, a Aliança Renovadora Nacional, Arena. Ele também esteve em Estrela, sua terra natal, e em Bom Retiro, onde inaugurou outras obras e fez um discurso sobre a importância de “se votar bem”.
No Conjunto Felizardo Furtado, Geisel e comitiva descerraram a placa de inauguração, conheceram um apartamento e depois seguiram para o Hospital da PUC.Durante a inauguração do conjunto habitacional, o Presidente da República foi saudado pelo presidente da Cooperativa Habitacional que construiu o “núcleo” (INOCOOP), Gilberto Rodrigues. Segundo transcreveu o Correio do Povo, Rodrigues, ao se referir à obra e ao presidente Geisel, falou em “libertação” dos trabalhadores:“Esse momento, consagrado com a presença de Vossa Excelência, significa a libertação de 944 famílias de trabalhadores que passam da condição de inquilinos e peregrinos de tetos alheios, a proprietários da casa própria”.
Na realidade, o Conjunto de 944 unidades, 8 prédios, 62 mil metros quadrados de obras (iniciadas em fevereiro de 1974), beneficiava famílias com renda mensal de cinco a oito salários mínimos – ou seja, era um condomínio para a classe média baixa. As prestações eram relativamente suaves (menores que o aluguel correspondente) e longas, o que atraiu um grande número de interessados.
VENDIDOS NA PLANTA - A maioria dos apartamentos, de um, dois e três dormitórios (poucos), havia sido vendida na planta, antecipadamente. Um empreendimento desssa magnitude, é claro, atraiu a atenção do mercado imobiliário e de muitos especuladores que viram uma boa oportunidade de lucrar com a revenda dos imóveis, como se pode ver pelos anúncios classificados do Correio do Povo (o maior jornal da época). No domingo, 31 de outubro, lia-se no CP:“Transfere-se vários apartamentos com um, dois e três dormitórios, living, banho social, cozinha e área de serviços. Conjunto novo com play-graud, estacionamento e área verde. Conj. Residencial Felizardo Furtado. Chaves em nosso poder. Diversos preços e condições. Tratar Riachuelo, 1513, s/loja, f.244471.” Outro anúncio, na mesma edição, dizia: “Preciso urgente de um apto no parque residencial FF. Negócio direto. Tratar f. 255004”. Dezenas de anúncios desse tipo – bem antes da data oficial da inauguração – saíam regularmente na imprensa.

No alto, o então prefeito Guilherme Socias Villela e João Antonio Dib,  O primeiro é hoje vereador. Abaixo, uma visão do condomínio nos dias de hoje.